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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O LEÃO, A ÁGUIA, O BABUÍNO E O HOMEM

Um dia o Leão, rei das selvas, madornava sob a sombra de um grande baobá, abrindo, vez em quando, sua bocarra ou espichando-se como qualquer outro bom felino.
Ciente de que tudo aquilo que via era seu (Sou Rei! - pensou) e piscando os olhos preguiçosos, percebeu a presença de um coelho selvagem no meio da sua planície.
Não houve tempo de a preguiça passar, nem mesmo de pensar em abater aquela presa. Um raio do céu, flecha certeira de rapina, já conduzia o indefeso animal para as alturas. Era a Águia, Rainha de um mundo tão distante do pertencente ao Rei, que se fartaria com o bicho orelhudo e nervoso.
O Leão invejou-a.
Não se preocupava muito com o céu, seus domínios eram outros. Mas naquele dia, algo havia mudado. No seu cochilo de dia inteiro, ele sonhou que sendo Rei não devia ter limites de poder. Mas os tinha. Seu reino possuía fronteiras. Sua condição de bicho-terra o prendia ao chão. 
- Ah, como seria bom voar.
E naquela tarde sonhou com asas e voou, e conheceu o mundo todo, e pode atingir feito flecha que surpreende, animais imensos e desavisados. Se viu com um suculento cervo debatendo-se em suas garras, enquanto, voando, sugava-lhe o sangue, pela jugular pulsante do quadrúpede.
Que prazer! Acordou extasiado e faminto, e sonhando ser Águia, livre e poderoso. 
Mais que ele! Como? Se ele era o Rei?
Em toda floresta há um oráculo e o Leão foi ter com ele. Era um velho babuíno, ancião da época dos baobás - fazia de um deles sua morada. Dizem que nascera como fruto daquela mesma árvore, desde que o mundo se fizera.
E o oráculo profetizou que sonhos de Rei realizam-se, mas que tivesse cuidado com aquilo que se quer demais e a mais. "Os sonhos se solidificam e pode não haver mais retorno".
Profetizou que o Leão voaria, sempre que quisesse, em todo e qualquer sonho, porque isso lhe era permitido, era vontade da força que criara tudo! Mas nunca voaria verdadeiramente. Os céus castigariam-no caso tentasse. 
O Leão, insatisfeito, devorou o velho babuíno de uma única bocada. E como violara uma lei dos céus, dormiu durante semanas, talvez meses. Caíra em um sono profundo e quando acordou, também era oráculo. Sabia tudo.
E sabedor das coisas, traçou um plano para conseguir suas tão sonhadas asas (e liberdade). Esperaria a oportunidade para devorar a Águia e absorver seu poder de voo. 
E assim o fez. Em um dia de caça, a Águia se fartava sobre uma presa que acabara de abater, quando foi surpreendida pelas garras afiadas do Leão. Absorta em sua fome, não percebeu quando suas carnes, ossos e penas se desmanchavam na boca voraz do animal Rei.  
O Leão dormiu. Violara a lei mais uma vez. Não se sabe por quanto tempo permaneceu inerte, mas sabe-se que ao despertar, possuía asas. Asas de Águia. E como filhote de ave, teve que aprender a voar e a caçar nos ares, era rapina, seus olhos aguçaram-se. Porém, não tardou a fazê-lo, pois o conhecimento do macaco ancião o pertencia também.
E voando sem limites, chegou a um lugar que nunca sonhara e que bichos nunca vistos, andavam sobre duas patas. Lugar estranho, onde as árvores eram blocos de barro sobrerguidos e o bicho novo, o Homem, convivia em aglomerações, em bandos.
E assim que viu tal criatura, reconheceu todo o seu poder e tudo o que invetara. E mais uma vez achou-se menor, pois o Homem podia muito mais que ele. O Homem detinha a razão.
Então, num assomo de fúria, mergulhou sobre a multidão e abateu o mais inteligente deles. Fartou-se da sua humanidade. Sentiu todas as dores e sabores de gente. Gozou e chorou. 
Dessa vez percebeu sua transformação, não adormeceu. Viu sua juba cair, sentiu seu focinho encolher, seu corpo transformava-se. Continuava Leão, mas ornava-se com as asas de Águia e a cabeça de Homem, agora.
Atordoado e cansado, pousou sobre um monte de terra e lá ficou. Violara mais uma lei. Esquecera que violadas três, um castigo abater-se-ia sobre si. 
E dormindo, não percebeu quando todo seu corpo foi se transmutando em pedra e que, naquele instante, no meio do deserto, era apenas uma Esfinge.


Bia Crispim

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

POSSUA-ME

Na língua
Derrete-se
Me adoça
Me amarga

Desliza pelas minhas veias
Me enriquece
De volúpia
E feromônios

Feliz e embriagada
Com o cheiro
Com o sabor
Com o deleite

Sinto você em mim
Simbiose
Que aquece o sangue
Que ferve o corpo

Exalo você
Pelos poros
Pela alegria
Pelo sabor

Sentido na boca
Na língua
Derretida e encharcada
De sua energia

Luxúria
Sedução
Associadas a seu poder
A sua magia

Estimula-me
Provoca-me
Me faz provocar
E despertar

Em mim
Nos outros
A libido e a felicidade
De suas substâncias

O êxtase total
Envolvido no corpo
No meu
Nos nossos

Esfregá-lo
Derretê-lo
Lambê-lo
Sorvê-lo

E deixar que a força
Do cacau
(Chocolate)
Possua-me.


Bia Crispim

UM

Nos contornos do meu corpo
Senti você deslizar
E se perder
E se afogar
De prazer, de deleite.

Na minha língua
Provou do meu sabor
Da minha voz
Inundando-me
Com o seu desejo.

Nos meus olhos
Vi fogo nos seus
Arder e queimar minha alma
Consumir meu ser
Se transmutar em fênix.

No meu sexo
Senti você pulsar
Gemer, gritar
Tremer, urrar
E viver.

E depois morrer
Sobre mim
Em mim
Dentro
Pois agora somos um.


Bia Crispim

DESPERTAR

Acordar pra quê?

          Se eu vou continuar sonhando!


Bia Crispim

MEUS OLHOS

"Zoin de cobra"
Contornados de preto
Espelho e reflexo
Transparência
Arma de verdade
E sedução.

Meus olhos não falam,
Expressam-me.


Bia Crispim

RECEITA DE CALOR

Os ingredientes são:
Um todo de sentimento intenso;
1/4 de amor;
1/2 de mim;
1/2 de ti.

Para preparar, misture seu 1/2 com o meu
E faça um todo.
Derrame-o em 1/4 de amor
Untado com lençóis macios
E deixe esquentar deixe arder deixe assar
Deixe ferver.

Após algumas horas,
(Ou minutos, ou segundos)
(Os ingredientes escolhidos contam)
Observe se está no ponto.

Se não, aumente um pouco mais a chama.
Deixe no 1/4 mais tempo, mais horas,
Mais dias ou noites.
Deixe no 1/4 para a vida inteira.

Mas nunca deixe esfriar.
E se isso acontecer, reaqueça!
E sempre, sempre, sirva quente.

Queimando a língua.


Bia Crispim

OLHOS MÁSCULOS

É interessante como as pessoas me olham. Adoro pegá-las no flagra, absorvidas, só Deus sabe em quais pensamentos.
Mas os homens (Ah! os homens...) olham-me muito mais e de cada jeito.
Dependendo do tipo, estes olhares vão desde o "eu tô te comendo" até o "eu queria ter essa coragem"; olhos de admiração e desejo, de curiosidade e gula, de estranhamento e repulsa, de nojo e preconceito... Tem de tudo...
Há homens que tentam disfarçar, olham de rabo de olho, outros parecem possuir scanners ou raios-X - me veem despida, ao avesso, por dentro. 
Há aqueles que encaram, (Corajosos!) que estão nem aí se alguém perceber. Uns riem com os olhos (Acho lindo!), outros me fuzilam. (Sinto até a maldade transpassar-me.) 
Mas também vejo amor brotar em muitos olhos, olhos que me amaram um dia ou que ainda desejam fazê-lo. 
Também sei que meto medo em alguns homens, vejo muitos olhos que se esquivam, que fogem dos meus. (Ou de mim?)
Já fui apresentada a olhos de verdadeiros analistas, de pesquisadores, de curiosos que me analisaram interna e externamente... Muitos!
Estou convencida de que os olhos são reveladores e de que os homens (tadinhos!) não conseguem disfarçar nada quando suas portas da alma estão abertas.
Os homens, de uma maneira geral, até acreditam que são capazes de disfarçar seus impulsos. 
Talvez até conseguissem se não tivessem olhos e pênis. E se as mulheres não fossem tão benevolentes "acreditando" em suas mentiras... (Acho que as mulheres se deixam enganar, mas sabem quando eles mentem, basta olhar em seus olhos.) São previsíveis. (Sempre!) 
Podem ser discretos, mas... Ah, olhos delatores! Ah, órgãos que não os deixam mentir... Inflamam-se de amor ou ódio a qualquer estímulo.
Arrepio-me com determinados olhos, incomodo-me com alguns, derreto-me em outros... e tenho que confessar... adoro ter olhos masculinos sobre mim, como holofotes dirigidos a uma atriz.


Bia Crispim

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

SOMETIMES INSIDE

"Sometimes it lasts in love
Sometimes it hurts instead"
(Adele)


Sometimes you met me
Sometimes you found me out
Sometimes I lost myself
Inside you
And you didn't meet me
Didn't find me out.

I've met me, sometimes
Inside myself
So far from you
And you couldn't see me
'Cause I'm lost
Sometimes.

Someone has known me
Someone has known you
But nobody could know us
We're not hide
We're lost one another
Inside us.


Bia Crispim

UMA GAROTA, UM PC E UM AMOR

Todos os dias ela estava na Internet. Um amigo até apelidara-lhe de "garota Facebook", mas na verdade ela estava conectada a um monte de outras redes sociais e salas de chat. Ela era "on".
Conhecia muita gente. Adicionava muita gente, cutucava muita gente. E muita gente fazia o mesmo com ela.
Diante da tela do seu notbook um outro mundo se abria. Passagem.
E a garota viajava e relacionava-se com tantas pessoas virtuais que nem sabia mais como conhecer uma de verdade.
Como se fazia? Era como no chat?
- Me add, aí.
- Me add, tbm.
(Era assim a apresentação on line.)
Cara a cara era sem graça! Nem tinha como mandar um emoticom! Preferia ali, olhos conectados, dedos que se prolongavam no teclado, eletricidade, fibra ótica, banda larga.
Ela era "on", afinal de contas.
O modem a acompanhava, fosse onde fosse, dia e noite. E ligada, plugada, a "garota Facebook" ampliava seu universo de rostos, fotografias digitais, músicas, ideias que deixavam de ser individuais, privadas, para serem, em milésimos de segundo, públicas.
Publicar. Era o verbo de ação. E ela publicava tudo, o que ela tinha para publicar e o mais que a net podia oferecer-lhe. Alimentava-se daquele universo a que pertencia.
Um dia, ela, sentada diante do computador, conectada, apaixonou-se.
Era uma imagem linda e dizia sempre aquilo que ela queria ouvir. Não é que a lista de favoritos dele tinha um monte de coisa que ela curtia, também.
Foi mágico perceber que todo dia ele estava ali, dando-lhe bom dia, boa tarde e boa noite, fosse para iniciar o chat ou despedir-se.
Ele mandava-lhe flores, sempre, lindas, mas sem perfume -  eram virtuais! 
Recebia, também, bombons - virtuais que não engordavam - e outros tantos presentes, arquivados todos em uma pasta no desktop.
Chegaram a construir uma cidade juntos... E quando se cansavam da correria e o stress da cidadezinha, visitavam a fazendinha, tão fofa e plástica, que, também, os pertencia.
Compartilhavam sonhos, fizeram planos. Ela era toda feliz, uma garota de sorte, havia encontrado o grande amor de sua vida.
Outra noite, sonhara com ele. Moreno, alto, forte, com um sorriso encantador, afagando-lhe os cabelos, enquanto dormia aconchegada e segura, sobre a proteção atenta dos olhos do rapaz. Era tarde já, quando percebera que havia adormecido sobre o teclado, mesmo.
Acordara de supetão, assustada, com alguém que chamava sua atenção no MSN. Era ele. Dizendo a garota que achava que estava em tempo de se conhecerem pessoalmente. Era seu desejo.
Ela não soube o que responder, na hora. Ficou confusa, desnorteada. Como assim? Vê-lo? De carne e osso? E se a imagem restaurada do photoshop fosse tão diferente do garoto que a esperava? E se ele tivesse mal hálito por trás daquele sorriso tão branco? E se as flores que lhe trouxesse fossem tão delicadas e naturais que murchassem e despetalassem-se antes do encontro acabar? E se seus olhos não brilhassem tanto como os digitais que um dia a hipnotizaram?
Ela era toda confusão.
Seu cérebro era um HD em pane. A ideia do real doía-lhe. Ele sairia do monitor e seria.
Não conseguiu responder, tornou-se invisível; nem tão pouco, conseguiu dormir. Olhava para o PC e não sabia o que teclar. O que responder? Sim ou não?
Estava em suas mãos transformá-lo de combinações de números binários a uma realidade de átomos e carbono. Ele, vivo, materializado em sua frente. O que responder? E o encanto todo? O que faria com aquilo, construído virtualmente?
Tornou-se febril. Sua cabeça rodopiava, a tela iluminava seus olhos e ofuscava-lhe com um brilho sobre comum. Tonta, embriagada de luz, viu passar a sua frente todas as fotos dele, todas as imagens, todos os posts, todas as conversas de MSN, todos os links... tudo.
E de repente, ela percebeu que seu corpo flutuava e que seus membros tornavam-se cabos que se interligavam à maquina. Seu corpo tremia em espasmos, convulsões, vibrações e ondulações... ela recebia e enviava dados. E viu sua essência de gente, de humana, esvair-se em bits, kbits, megabits. A máquina fazia download da garota, que agora, sem sentidos... desfalecera.
No quarto... ausência de ruído ou movimento...
Quando despertou, ela estava diante dele. 
Que sensação incrível... Era ele mesmo, do jeitinho que sempre vira em fotos. 
De carne e osso? Não. Até ela agora era um arquivo. E o sorriso trocado, o beijo dado, ficou postado como descanso de tela do PC, num quarto vazio e silencioso de uma garota apaixonada.


Bia Crispim

VERDADE

A parte de mim que mente é tão verdadeira!
Aprendeu a crer naquilo em que suas palavras constroem.


Bia Crispim

UM MENINO OBSERVEI

Sol lambeu um mel,
Lambeu um menino
Onde eu um momento o observava.
Amei incrivelmente esse estímulo.
Odiei esse estrela-astro.

Quem merecia acariciar
Risos seus?

Eu!


Bia Crispim

AIS

Carnais
Anais
Viscerais
Sexuais
Normais
Iguais

Amor voraz!


Bia Crispim

AMIGOS

A todos os meus amigos que encheram-me de amor.


Amanheci triste.
Meus sonhos se afastaram,
Igualmente minha vontade de viver.
Guardei meu choro e decepção.
Odiei-me e a tudo.
Só vocês conseguiram convencer-me...
        
          De que o mundo é um lugar melhor
          Quando se tem amigos do lado!


Bia Crispim

NÓS

Entre sol e lua
Estrelas

Entre campo e cidade
Mar

Entre dia e noite
Madrugada

Entre alto e baixo
Céu

Entre quente e frio
Corpo

Entre esquerda e direita
Ficar

Entre ir e voltar
Contemplar

Entre um e dois
Três

Entre flores e frutos
Sementes

Entre pai e mãe
Família

Entre multidão e solidão
Amigos

Entre feio e bonito
Feliz

Entre sono e sonhos
Desejo

Entre preto e branco
Arco-íris

Entre música e cinema
Livros

Entre doce e salgado
Água na boca

Entre carinho e sexo
Você

E entre você e eu
Nós


Bia Crispim

LUNA

Lua, nua,
branca e caudalosa,
invadia meu quarto, meu sonho, 
conduzia-me, enlouquecia-me.

Virei loba, uivei
e fui à caça.
Perverti-me, 
enchi-me de luz
e enchentes.

Alguma coisa
movia-se em mim
como ondas, 
penetrava-me,
rebentava-me.

Luar prata
invadia os olhos e o coração.
Glóbulo branco
que impulsionava 
o pulso.

O impulso
de sair
de libertar-se
de experimentar
a noite clara...

Alva, alma,
clarão que lambia-me.
Fogo branco brando
que prateava minha 
pele feito escamas.

Eu, prata, lua,
sereia fora d'água,
molhada, úmida,
à procura de um náufrago
para seduzir.

O luar energizava-me,
sacudia-me
e balançando o rabo
de deusa-peixe-mulher,
enfeitiçava-o.


Bia Crispim

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

E VOVÓ SE FEZ AMIGA DO GOVERNADOR

A minha Mãe

"Amai, Normalista, amai!
Vossa espinhosa carreira.
Serás como mãe e pai
Pra criança brasileira."

Minha Mãe escreveu esta estrofe em um poema intitulado "Normalista". Tinha 13 anos na época. Sonhava em ser professora.
Aos 14 anos a primeira etapa do sonho realizou-se, foi substituir uma professora que tirara licença maternidade no Grupo Escolar do Sítio Rio Salgado, zona rural de Cruzêta, cidade onde minha Mãe morava com meus avós e irmãos. Ela é a filha mais velha de seis.
Acordava às cinco da manhã, deixava o café pronto, preparava-se para sair. E dos fundos da casa de Vovô, pegava uma canoa guiada por um dos meus tios, pequenos ainda, para conduzí-la à outra margem.
Lá chegando, ainda andava léguas. Atravessava um rio (às vezes com água pela cintura), conduzindo alguns alunos, para poder chegar à escola.
Após um ano e meio, resolveu mudar-se da cidade para o Sítio Rio Salgado, onde meu bisavô, Egídio, morava. Não teria mais que atravessar o açude, o obstáculo agora era só o rio, que de tão cheio, às vezes, impedia que a menina, agora com quase 17 anos, realizasse seu sonho de magistério.
Aí entra minha avó, Martiniana, nessa história. 
Vendo que a menina dava pra coisa, ela resolveu intervir.
Apesar de ela e Vovô serem bacurais doentes - como se diz por aqui - Vovó resolveu "mudar de lado", "virar a casaca" e se aliar aos amigos do governador Dinarte Mariz.
Não é que deu certo. A viagem de canoa, conduzida por Ti'Paulo, Ti'sis ou Ti'fonso, já não existia mais e a travessia do rio para chegar à Escola Isolada João Francisco do Sítio Rio Salgado estava com seus dias contados. 
A segunda etapa do sonho estava para acontecer. Completado 18 anos e com a promessa política conquistada por Vovó e sua "amizade com o governador", minha Mãe é nomeada como funcionária efetiva  do Estado do Rio Grande do Norte. Era uma professora de fato.
A jovem normalista recebeu a nomeação das mãos do próprio governador.
Não sei se depois disso a amizade de Vovó com ele continuou, mas a professorinha, ah!, desta eu tenho o que falar.
Tornou-se mestra exemplar, realizou o sonho de criança e hoje, aposentada após quase cinquenta anos de labuta, ainda se lembra dos anos em sala de aula, quando, na cozinha, a pego cantando:

"Vestida de azul e branco
Trazendo um sorriso franco
Num rostinho encantador.

Minha linda normalista
Rapidamente conquista
Meu coração sem amor"...


Bia Crispim

MEU SOM(N)



A Alisson Arruda, descoberta de ser humano lindo e doce que me encantou como poucos.

Branquinho, dentes, pele e alma
Meu Son, som, Sonson
Invadiu o espaço
Tomou conta dos ouvidos
Dos poros
Do coração

Meu Som(n)
Tranquilo, romântico, sensível
Tocou
Ritmo doce, bossa
Me tirou da fossa
Doce som, Son, do bom

Pra teclar, pra tocar
Pra por na boca
Sentir na língua
Pra pra pra
Som frenético, pulsante
D A N Ç A N T E
Arrebatou-me
Me pôs na pista
Som, do bom, Sonson

Dancei
Pulei
Brinquei
Cantei
Ri
De mim, de ti, do som
Sonson, do bom

Misteriosas notas
Saídas do cós da calça
Um headphone pra por no ouvido
Pra por no quadril
E ouvir e tocar e sentir e mexer e dançar

Dó Ré Mi Sol Som(n)
Sonson
Branquinho, limpinho
Sem ruído ou rancor
Melodioso, gostoso
Com cheiro bom
Meu Som(n), Sonson

Um ritmo, um átomo
Íntimo
Abraçados o som pulsa
Afastados o som pulsa
Um de emoção, outro de saudade

Apaziguador, mediador
Baixinho pra ouvir
Alto pra curtir
Meu Som(n)
Se espalha, toma conta
Da pista, da rua, da lua, do espaço

Fá Sol Lá
Faz sol lá onde meu Som(n) tocar
Faz música, esperança, bonança
Faz-me criança
Mulher, mais mulher
Diva!

Meu Som(n)
Sonson
Me faz Diva
Na cama
Na pista
Na rua
No cinema
No barzinho
No show
Ele é meu show
Meu Som(n), Sonson

Eu, a Diva iluminada
Sem Som(n)
Sonson
Apagada

Palavras não expressam
Sentimentos também não
Só o som, só som, Sonson
A música nos explica
Cada letra, cada verso
Pedaços
De mim
Te ti
De nós, meu Som(n).

Bia Crispim