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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

DOIS HOMENS E A MULHER

Numa tarde chuvosa de encharcar o espírito, duas almas molharam-se e descobriram-se... afinidade.
Naquela tarde, na rua, rindo das goteiras nas paradas de ônibus e do guarda-chuva que não os protegiam...  amaram-se.
Haviam ido visitar um grande amigo dela, um ex-namorado dele. A pneumonia o deixara em estado de internação. Era domingo, dia de visita aos doentes.
O moribundo ficara tão feliz com a chegada dela, que brincando, se fez de enfermeira, e com os sentimentos (ainda) compartilhados do outro.
Obrigação de bons Samaritanos cumprida! 
Depois de gargalhadas e fotos e a certeza da recuperação do convalescido, encontravam-se, ele e ela, os visitantes, entreolhando-se por entre a água que desabava. 
E uma pergunta, não se sabe feita por quem, surgira:
- Cinema?
- Vamos!
E rindo de tudo aquilo e felizes do banho que lavara seus espíritos e corpos, foram.
- Lá é melhor!
- Também acho!
Que filme assistir? Ele não a conhecia bem. Ela, muito menos. Gostavam de cinema. Era fato! E o filme? Pouco importava:
- O que tiver em cartaz! Chegar lá a gente decide!
O transporte não tardou e não tardou também saberem-se adoradores de doces e músicas.
- Loja de doces, primeiramente?
- Chocolate? 
- Sim!
- E jujuba? Adoro jujuba!
- Batatinha?
- Mesmos gostos, né?
- É!
Na bilheiteria muitos filmes, mas não demoraram a entrar em acordo, já parecia acordado antes de estarem ali. Era de amor, de família, de criança...
E as duas crianças riram e comeram e se sujaram com doces e refri e manteiga de pipoca. Lambuzaram-se de carinho e troca de sorrisos e olhares... Apaixonaram-se!
Mas e o coração dele não pertencia ao que havia ficado no hospital? 
E o coração dela? De quem era, afinal?
As doenças passam, mas o amor fica. 
Um dia, curado, o velho amigo-amante-moribundo juntou-se à dupla. E os dois homens que se amaram, amavam?, descobriram que amavam-na, também. 
Eles, os dois homens, ela , a mulher!
Daria certo aquilo?
Amor não devia ser só pra dois?
Devia?!
Ninguém sabia explicações. Na verdade, nem questionaram-se, só perceberam quando a relação já existia. Uma relação a três.
Amor gratuito, verdadeiro e puro brotou nos corações de cada um. E ele mesmo se fez entender. Infiltrou-se!
Um dia dormiram juntos, naturalmente. E acordaram juntos, mas não se largaram. A cama agora era ninho. E aninharam-se, um dia todo. Como consolidação de um sentimento novo e incomum.
A mulher era diferente de quaisquer umas conhecidas por eles na vida, porém, mulher. 
Dividia-se entre dois, entre o branco e o preto, o rude e o amoroso, o metódico e o impulsivo, o corajoso e o medroso, a mente e o coração, o aquário e o leão. Um pensa, outro age e ela, boca, sabia usar a palavra e explicava-se e explicava-lhes. Navegava entre eles como sereia em alto-mar...
Comeram e beberam da mesma coisa. E tudo eram rosas. Até que alguém se machucou num espinho...
Separaram-se? Não! Machucaram-se, mais tão profundamente que o silêncio brotou.
Ela, mais sensível, chorou!
O rude fora cruel isolando-se. (Ela precisava de palavras, ele era mudez.)
Mas, o outro estava ao lado dela e como bom conciliador resolveu agir.
Porque já não se sentia feliz, já não nos sentíamos felizes. Não havia mais "três", a trindade rompera-se e o encanto, despetalava-se como rosa que murcha.
Três partes incompletas.
Unir tornara-se a palavra da hora para o conciliador, que, sensibilizado, usou da arma mais terrível contra o homem rude: - Ela chora!
A rudeza fez-se mansidão e sentindo-se, também, incompleto, resolveu unir-se.
A mulher, dona da palavra, até então, escrevia com lágrimas. 
Então, ouviu um voz que dissera que ainda a amava, um som ainda tímido, mas ouvira... O coração dele era escutado ao longe!
- Vamos brigar mais não! Promete?
- Não! Vamos brigar sim. Porque foi assim que descobri que amo vocês mais que nunca.
O outro abriu um sorriso... o elo estabelecera-se e eram três, novamente: dois homens e a mulher.

Bia Crispim

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