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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O ABACATEIRO É O PAI DE TODOS NÓS - Por Matheus Ferreira

Como havia dito na postagem "UM ABACATE CAIU NO MEU QUINTAL", eu e meu velho e grande amigo, Matheus Ferreira, estávamos fazendo experimentações literárias... O seu conto, autorizado por ele, está aí, publicado em meu blog, para o deleite dos meus seguidores, e, logicamente, o meu.
Era Noite quando senti a necessidade de ir ao quintal - ir ao quintal é o meu modo estranho de ser, minha liturgia diária.
Sempre que entro no quintal acontece alguma coisa grande ou pequena, doce ou atroz dentro e de mim.
O Quintal é sempre dentro da gente, e é sempre de noite.
Os animais, os insetos, as coisas velhas encostadas na parede, as ervas e os joios, as lembranças e as quimeras, tudo têm um sentido visceral e um encantamento que tornam o resto da vida como algo meramente secundário. Prefiro-os aos seres humanos, aos saberes, a esplanada dos ministérios, ao bom gosto e ao bom senso. Eu não gosto do bom gosto... eu gosto dos que têm fome.
Compreendo-me mais quando o quintal está, porque só Ele é, e por ser assim tão onipotente, Ele me percebe como um bicho que olha devagar e para cima, como ave que se recolhe e ao mesmo tempo abre as asas e cisca pelo chão.
O absurdo da vida se diz de muitas maneiras dentro do meu quintal.
Enquanto a escuridão não findava notei que no abacateiro havia um corte bem no peito, e seduzido pela coisa viva que escorrendo sorria para mim, comecei a me arrastar no mesmo compasso, como uma preguiça amojada, atendendo ao seu silencioso convite.
1. Era um ritual todo humano e todo materno.
2. Convite dessa natureza é território sagrado.
3. A gente misteriosamente se ajoelha e aceita.
Quando abri os olhos estava dentro do abacateiro, sua alma verde estava perto da minha, como um serafim de procissão de interior com asas de isopor.
Houve lágrimas paulatinas.
Por um instante deixei de ser humano e virei uma coisa verde com asas de isopor. Estranhei-me de mim. Fiquei cansado como todos os que seguem a Sócrates e o seu conhece-te a ti mesmo.
Ninguém conhece a si mesmo, só o abacate.
Ele é o Pai do meu quintal, o Chefe da guarnição o Carcará do meu sertão que antropofaga e traz para si tudo o que quer. Está sempre vestido de rei.
Quando o sol era já ido, vi uma lagartixa espichada derramando suas águas caudalosas feito flor de mandacaru. Farejei. Reconheci seu cheiro. Cheiro das cocadas de vovó, de scheelita, de canoa e menino que grita: tenho medo!!! Cheiro de outrora, de agora e de sempre.
Houve lágrimas copiosas.
Simbiosificamos.
A vida nos postergava enquanto eu espichava meu pensamento para cima do abacateiro.
Era um abacateiro de um abacate só, e nele havia palavras ainda não ditas.
Era a casa da palavra onde o silêncio mora.
Que lançava suas flechas sobre seus dois hemisférios: a lagartixa e eu - digo eu porque ainda não sei que sou. Eu é a tentativa de ser e a saudade da convivência que deixamos de ter.
Era a casa dos seus antigos gatos - hoje felinos com garras, esporas e fascínios - uma tigreza de unhas negras e um filhote de leão querendo entrar no mar. Ali no abacate eu... era nós em movimeto suicida. Queríamos cair, queríamos gritar (não mais para dentro), queríamos nos separar do caroço, quebrar todas as cascas, sair para fora de todas as lógicas, de todas as sacadas e ir ser selvagens. Houve lágrimas de libertação. Rugíamos pois agora estávamos no chão, nas suas mãos, sob os seus cuidados paternos, maternos, fraternos, desse tipo de gente que muda o nome e usa suspensório, que abre fendas, cobre vales e revolta as águas do rio. Efervescência Verborrágica de Memórias, como os meus sentidos têm cio de vós!!! (...) Ele fez uma vitamina de nós. Fomos comidos, tomados e regurgitados.  Seguimos o seu rastro e nos encontramos no caminho entre a pureza do limão e a solidão do espinho.

Noite do dia 15 de Novembro de 2011.
Matheus Ferreira.

Um comentário:

  1. Vc e seu poder de intertextulizar... Amei... Sorria e chorava a cada memória desprendida dos símbolos apresentados por ti, amigo... Matheus, vc é um gênio, "coisa verde".

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