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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

UMA GAROTA, UM PC E UM AMOR

Todos os dias ela estava na Internet. Um amigo até apelidara-lhe de "garota Facebook", mas na verdade ela estava conectada a um monte de outras redes sociais e salas de chat. Ela era "on".
Conhecia muita gente. Adicionava muita gente, cutucava muita gente. E muita gente fazia o mesmo com ela.
Diante da tela do seu notbook um outro mundo se abria. Passagem.
E a garota viajava e relacionava-se com tantas pessoas virtuais que nem sabia mais como conhecer uma de verdade.
Como se fazia? Era como no chat?
- Me add, aí.
- Me add, tbm.
(Era assim a apresentação on line.)
Cara a cara era sem graça! Nem tinha como mandar um emoticom! Preferia ali, olhos conectados, dedos que se prolongavam no teclado, eletricidade, fibra ótica, banda larga.
Ela era "on", afinal de contas.
O modem a acompanhava, fosse onde fosse, dia e noite. E ligada, plugada, a "garota Facebook" ampliava seu universo de rostos, fotografias digitais, músicas, ideias que deixavam de ser individuais, privadas, para serem, em milésimos de segundo, públicas.
Publicar. Era o verbo de ação. E ela publicava tudo, o que ela tinha para publicar e o mais que a net podia oferecer-lhe. Alimentava-se daquele universo a que pertencia.
Um dia, ela, sentada diante do computador, conectada, apaixonou-se.
Era uma imagem linda e dizia sempre aquilo que ela queria ouvir. Não é que a lista de favoritos dele tinha um monte de coisa que ela curtia, também.
Foi mágico perceber que todo dia ele estava ali, dando-lhe bom dia, boa tarde e boa noite, fosse para iniciar o chat ou despedir-se.
Ele mandava-lhe flores, sempre, lindas, mas sem perfume -  eram virtuais! 
Recebia, também, bombons - virtuais que não engordavam - e outros tantos presentes, arquivados todos em uma pasta no desktop.
Chegaram a construir uma cidade juntos... E quando se cansavam da correria e o stress da cidadezinha, visitavam a fazendinha, tão fofa e plástica, que, também, os pertencia.
Compartilhavam sonhos, fizeram planos. Ela era toda feliz, uma garota de sorte, havia encontrado o grande amor de sua vida.
Outra noite, sonhara com ele. Moreno, alto, forte, com um sorriso encantador, afagando-lhe os cabelos, enquanto dormia aconchegada e segura, sobre a proteção atenta dos olhos do rapaz. Era tarde já, quando percebera que havia adormecido sobre o teclado, mesmo.
Acordara de supetão, assustada, com alguém que chamava sua atenção no MSN. Era ele. Dizendo a garota que achava que estava em tempo de se conhecerem pessoalmente. Era seu desejo.
Ela não soube o que responder, na hora. Ficou confusa, desnorteada. Como assim? Vê-lo? De carne e osso? E se a imagem restaurada do photoshop fosse tão diferente do garoto que a esperava? E se ele tivesse mal hálito por trás daquele sorriso tão branco? E se as flores que lhe trouxesse fossem tão delicadas e naturais que murchassem e despetalassem-se antes do encontro acabar? E se seus olhos não brilhassem tanto como os digitais que um dia a hipnotizaram?
Ela era toda confusão.
Seu cérebro era um HD em pane. A ideia do real doía-lhe. Ele sairia do monitor e seria.
Não conseguiu responder, tornou-se invisível; nem tão pouco, conseguiu dormir. Olhava para o PC e não sabia o que teclar. O que responder? Sim ou não?
Estava em suas mãos transformá-lo de combinações de números binários a uma realidade de átomos e carbono. Ele, vivo, materializado em sua frente. O que responder? E o encanto todo? O que faria com aquilo, construído virtualmente?
Tornou-se febril. Sua cabeça rodopiava, a tela iluminava seus olhos e ofuscava-lhe com um brilho sobre comum. Tonta, embriagada de luz, viu passar a sua frente todas as fotos dele, todas as imagens, todos os posts, todas as conversas de MSN, todos os links... tudo.
E de repente, ela percebeu que seu corpo flutuava e que seus membros tornavam-se cabos que se interligavam à maquina. Seu corpo tremia em espasmos, convulsões, vibrações e ondulações... ela recebia e enviava dados. E viu sua essência de gente, de humana, esvair-se em bits, kbits, megabits. A máquina fazia download da garota, que agora, sem sentidos... desfalecera.
No quarto... ausência de ruído ou movimento...
Quando despertou, ela estava diante dele. 
Que sensação incrível... Era ele mesmo, do jeitinho que sempre vira em fotos. 
De carne e osso? Não. Até ela agora era um arquivo. E o sorriso trocado, o beijo dado, ficou postado como descanso de tela do PC, num quarto vazio e silencioso de uma garota apaixonada.


Bia Crispim

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