Quem sou eu?

Minha foto
Descubra-me depois que adentrar na minha poética.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ÓCIO

Quando não tenho o que fazer
Curto o meu ócio

Produtivo ócio que não me deixa desligar!


Bia Crispim

SARAU

Lua
         poesia
                      violão

Gente
            conversa
                              riso
                             
                                      Emoção

Sentimento
                      choro
                                  declamação

Troca
             arrepio
                            sarau

                                        Consternação


Bia Crispim

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

MARIAS

As minhas irmãs


Mães
mulheres
guerreiras

Geniosas
generosas
geniais

Vivas
arteiras
conquistadoras
elétricas

Impulsionadas
por amor
por família
por vida

Marias
constelação de cinco
cintilantes
e belas

São feitas
de alma
de força
de energia
de felicidade
de união

Grudadas
uma
separadas
ainda unidas

Marias
de minha vida
de minha infância
de todas as fases

Marias
que ninguém
esquece

Amigas 
altruístas
dignas 
Marias

Uma atrás da outra
surgiram
e cresceram
e multiplicaram-se
encheram o mundo

Ô Marias danadas!
-Desde pequena, diz a mãe
Até hoje!
lutam
sobrevivem
encantam

Porque são feitas de amor.


Bia Crispim

E A VIDA VAI

Na incerteza de dormir: 
O porvir!
E o que tiver de vir
Que seja pra rir...

Porque de chorar eu já cansei!


Bia Crispim

A VIAJANTE

Da janela do ônibus, vento seco na face, olhos entreabertos de sono, a viajante absorvia as paisagens do Sertão. 
O que via era uma terra seca. Era já verão, o solo acinzentado, as folhagens, antes verdes, agora ocres. E aqui ou acolá, uma jurema resistente. Ossada daquilo que um dia fora uma vaca leiteira jazia no acostamento. Urubus pairavam mais à frente - outra vítima do calor, decerto.
E o céu de um azul quase transparente se confundia com as nuvens brancas espaçadas - torres que a infância ainda projetava desenhos.
Voltava pra casa. Era Natal e a família estaria lá, junta mais uma vez. Sua cabeça era um turbilhão de pensamentos desconexos, fragmentados. Pensava nas pessoas, cenas, vivências e relações que havia criado com cada cidade que passava e com a própria estrada. Pensava na família, nos amigos, no trabalho e no dever cumprido de mais um ano. Pensava nos seus alunos - era professora a viajante - e no futuro que os aguardava.
O Sertão fazia aquela mulher pensar demais. Talvez fosse o calor que produzia vertigem, ou que a enchia de fogo e vida, como lenha no fogão da avó. 
Ela via passar os mandacarus resistentes, o carcará resistente, o seridoense resistente. Um flamboyant verde tão florido de vermelho lhe dizia: - Resista, pois somos feitos de fibra.
Quanto ela não tinha daquele lugar e de todas as pessoas que cruzaram sua vida . Um pouco de cada um. Muito de tudo.
Possuía a força do Sertão, a vaidade da sertaneja, a sabedoria eternizada nas serras. Suas emoções se manifestavam em ciclos de inverno e seca, de frio noturno e calor diário intenso. Possuía o mistério místico daquela terra que havia lhe parido e sentia-se parte da grande família do Seridó. Era parente de todos e de todo lugar.
As madrugadas reservavam-lhe sonhos, sonos tranquilos, pesadelos e banhos de luar. Encontro com os amigos e festa. Reservavam-lhe sexo, trocas de olhares e coisas ditas proibidas. Segredos e delírios.
Os rios e lagos secos despertavam-lhe a saudade das águas e as mangueiras floridas, carregadas, traziam-lhe de volta imagens da infância. Os cheiros bons ou ruins reportavam-lhe a tantas histórias. E como as tinha pra contar. 
Histórias que os livros lhe ensinavam. Histórias que os homens lhe introduziam. Histórias que as mulheres lhe confessavam. Histórias vividas e planejadas. Suas, de uns e outros. A vida e a estrada ainda construíam-nas, como se não tivessem fim. E muitas de milhares de suas histórias ainda estavam por vir.
Ela não era só uma viajante. Era uma bagagem. Como mala de um caixeiro eletrônico, cheia de tantas surpresas e causos, aberta às possibilidades, todas.
Era assim. Plena com a vida que lhe fora dada. Feliz com a viagem que fazia, e com sua viagem diária - essa grande jornada, que nem a morte consegue extinguir - pois a essência e a memória são as linhas que a costuram.


Bia Crispim

A LÍNGUA

Como encontrar beleza nas palavras?
          Refletindo-as no espelho d'alma!

Como sentir o som das palavras?
          Fechando os ouvidos para os ruídos do mundo!

Como se enternecer com elas?
          Tornando o coração puro!

Como saboreá-las?
          Com a língua!


Bia Crispim

A PALAVRA ME MATOU

Lapidei uma palavra
E os cascalhos eram outras
Menores, mas não menos densas
Diamantes raros que me navalharam.

Morri delas.


Bia Crispim

GOTAS DE ACONCHEGO

Cheiro de terra
De água e terra
Lama
Vida do Sertão

A jurema sentiu o cheiro
Enverdeceu-se
E o frio cortou o vento
À boca da noite

Cheiro de mato molhado
De sertão em flor
Esperança úmida
Transparente
Incontida

Pingos, respingos
Sensação de banho
De limpeza
De renovação

Do cinza do céu
O sol se esconde
Esfriou-se?
Apagou-se?
Intimidou-se!

E o vento soprou
Bateu água em tudo
Na cara
Na alma

O mundo estava regado
O quente, aplacado
O chão, ensopado
O coração, feliz

Hoje dormirei escutando os pingos
Os rumores da água
Seus segredos tão escorregadios

Sonharei com mar
Com cachoeira
Embaixo da bica num dia de sol!

E me sentirei aconchegada
Quando despertar aquecida
Em seus braços.


Bia Crispim

DOR DE AMOR

Eu tive um amor que doía
Não dor essa que a gente conhece
Dor desconhecida
Inexplicável
Inseparável de mim.

Doía tudo:
O coração
A cabeça
A alma
O corpo todo era dor
Porque amava
Amava tanto que doía.

Corroía por dentro
Entranhas e juízo ( se já o tive!)
Era dor pulsante
Dilacerante
Intempestiva e indomada

Sem controle, ela me rasgava
Me despedaçava
E eu gemia e sofria e morria
Até chorava! ( E rezava junto)
Dor de amor

Amor que dói
Que machuca
Que afunda

Cheguei ao fundo do poço da minha dor
Na fossa
E tive medo 
Além de dor

E sozinha, no escuro
Tomada de dor e amor e medo
Pensei:
Ainda bem que doeu em mim
Porque senão teria sido em outra pessoa!


Bia Crispim

ANJO QUE ME GUARDA

A você, grande segredo


Uma vez ele me olhou
Seus olhos brilharam
Outra vez ele me disse
Muito prazer

Uma vez falou-me
Que eu era a melhor
Outra vez nos pegamos
Numa noite de conversa longa

Uma vez ele me presenteou
Com algo que lhe pertencia
Outra vez convidou-me 
Para um filme juntos

Uma vez seu coração eu senti
Explodir gozo e nervosismo incontroláveis
Outra vez mais me possuiu
Agora como sempre o quisera

Uma vez amedrontou-se
Desejo e medo o tomaram
Outra vez, impulsivo, 
Domou-me sem pudor

Uma vez fomos amigos
E nos admirávamos
Outra vez fomos amantes
e nos desejávamos

Uma vez 
O susto do beijo
Outra vez calor e suor
Derretiam-nos

Uma vez o tempo passou
E nos perdemos
Outra vez disseram-me
Que a morte nos separara

Uma vez...
Foste meu amado
E agora és anjo que não mais me tenta
Mas que me guarda!


Bia Crispim

FAMIGERADAS BUNDAS

Ao meu amigo, Jerônimo Alves

"O que pode concorrer com uma bunda? 
Uma banda de bundas!"

"Uma banda sem bunda não é banda.
E uma banda sozinha, não é uma bunda."

São com esses questionamentos "filosóficos" que inicio minha crônica.
A paixão nacional saiu do comercial e se tornou real. Muito "Real". Tem bunda no seguro. A dona morre, mas a bunda tá assegurada. Chic!
Uma banda de forró, dessas que estão na moda, conseguem se manter, enchendo imensas casa de show, não pela música, mas pelas bundas das dançarinas. 
Faustão, por exemplo, também continua no ar, não pela competência, mas pela constelação de bundas do seu balé.
A empresa de cerveja que não expor meia dúzia de bundas, fica em desvantagem no mercado.
Bunda não é produto, é moeda. E cara.
As academias e os personal trainers que não produzirem bundas, caem no esquecimento e na falência.
Drummond já escreveu sobre a bunda. Queria ver o que ele escreveria hoje. Bundamor (palavra criada por ele) viraria bundacifras, decerto.
A indústria descobriu a bunda como Moisés, as tábuas. Encontraram a salvação.
O teatro, o cinema, seja qual for o programa de TV, sem closes e holofotes em bundas, não comercializa.
O mundo está desbundado. Abundantemente. E aqui, no Brasil, a bunda virou produto tipo exportação. Prostitutas e travestis brasileiros são mais caros, graças as nádegas brasiliensis. Vendemos também os exercícios para a tão desejada "bunda brasileira".
As mais desejadas do mundo por homens e mulheres. Desejos distintos, interesses diferentes, mas, por trás de tudo, uma finalidade comum: sexo.
Vagina já era! Bunda é a bola da vez... (Ou é a caçapa?!) Os pornôs anais que falem por si.
Pensamos bunda, vemos bunda, vendemos bunda, usamos bunda, fabricamos bunda. E elas estão ao alcance de todos.
Quer uma bunda? Compra na revista da AVON!
Vai num cirurgião plástico, silicone, lipo escultura...
Engorde, malhe, massageie... Se mate, mas tenha uma bunda pra ser admirada e para existir.
A filosofia antiga ensina, "Penso, logo existo." E a indústria da futilidade moderna consumista ensina, "Tenha, logo exista!" E ter uma bunda, não importa se com estrias ou celulites (é necessário volume, ser grande, roliça, maciça) faz de você um ser.
(...)
Estamos sendo devorados por bundas. As famigeradas bundas que como buracos negros, não se importam com o resto do universo.
E vão se importar por quê? Se são elas que se sentam nos tronos reais e presidenciais, nas cadeiras do poder e comandam as nações!
Deus salve a bunda!


Bia Crispim

AMOR, PERFEIÇÃO

Falar de amor
Contar histórias de amor
Alimentar-se de poesias e frases de amor
Cercar-se de amor, por todos os lados
Eis um grande desafio.

Amor é sentimento, não
É dádiva divina
Dádiva de mãe
Presente de quem se doa
Herança de Eros e Afrodite.

Amor atinge
Consome
Nutre
Expande-se
Contagia
Multiplica-se
Devora.

Amor é sentimento, não
Amor é bicho
Que cresce lento ou ligeiro
Que se apodera
Carinhosamente ou como um knock out
É bicho que se alimenta de gente
Que se transforma em gente
Em ação, em doação.

Amor dos sonhos
Amor das camas
Amor das famílias
Amor do homem e da mulher
Amor de criança
Amor de mãe.

Incondicional 
Profundo
Intenso
Porém, patético
Bobo de tão simples
Grandioso de tão pouco
Esplêndido de tão comum.

Amor de dia-a-dia
De dia todo
De todo dia e noite
Amor de carne e sexo
Amor de espírito e presença
Amor nos olhos
Nos poros
Nos ninhos
Passarinhos.

Amor frívolo ou vulcânico
Que apazigua ou que queima
Que gela ou que arde
Que sacode ou acalma
Amor do verbo amar
Amar de estar para
Estar por
Estar em
Sempre... porque há amor.

Falar de amor
Contar histórias de amor
Lindas ou tristes
Alimentar-se de poesias e frases de amor
Ditas, inventadas, escritas, copiadas... repetidas
Cercar-se de amor.

Amando
Amando-se
Amando-me
Amando tudo.

Tudo pede amor
Tudo fome amor
Tudo sede amor
Tudo amor
E o desafio torna-se perfeição.


Bia Crispim

CONSTELAÇÃO DE ÓRION

Aos amigos Custódio e Maguila, caicoenses que fazem de Caicó um paraíso intelectual.

Churrasquinho, caldo, cachaça e amigos é a melhor combinação para um domingo à noite em alguma calçada ou esquina de Caicó. Principalmente se esses amigos forem artistas, filósofos, professores, advogados ou políticos.
Não se conversa ou proseia, abre-se uma assembleia ou um espetáculo, de muito bate-boca e gargalhadas. E quando a água que passarinho não bebe começa a fazer efeito é que o negócio fica bom. As ideias (boas) brotam, fluem e se espalham.
Quem estiver à mesa ou nas proximidades arregala os ouvidos e os olhos. A conversa é cabeluda.
De questões ligadas à política, arte e filosofia, partimos para violência urbana, gastronomia e sacanagem. Entramos na música, nas últimas notícias e nos projetos particulares de cada um. Falamos de amores, é claro!
Recebemos outros amigos passageiros, alguns que pararam e abriram uma outra discussão, ou só deram notícias de suas vidas e depois partiram. Rodízio animado de gente.
Mas nós três, que nos propusemos a derrubar três latinhas de aguardente, não arredávamos os pés dali.
Nem lembro de ter ido ao banheiro vez alguma.
(...)
Sorvido todo o álcool, saímos os três, banhados de lua e estrelas em busca de nossas casas. Rindo de tudo e de qualquer coisa que falávamos, o que, em hipótese alguma chamaria de besteira ou asneira.
Ainda pensamos em lavar a cachaça com uma cervejinha... costume de seridoense... mas optamos por não fazê-lo, já era tarde.
Caminhando, abraçados, nós três também brilhávamos como as estrelas no céu. E não sei por que um de nós falou: - Eu prefiro a constelação de Órion.
A cachaça não me permite lembrar em que parte da conversa essa máxima surgiu, mas lembro-me que veio acompanhada de muitas risadas. 
Órion estava sobre nós e também estava ali, no brilho que emanava da nossa alegria bêbada de sermos amigos e de estarmos juntos, naquela noite quente do Sertão de Caicó.


Bia Crispim

sábado, 17 de dezembro de 2011

DEVO-TE

A minha Mãe, mulher ímpar e inspiradora.


Devo-te a vida
A postura, a conduta
A língua
O respeito

Devo-te o sorriso
O companheirismo
O coração grande
Que bate no peito

Devo-te a fé
O amor
Os trejeitos
O meu jeito

Devo-te o bom gosto
A verdade
A honradez
E tudo que tens feito

Devo-te a amizade
A bondade
A oração lida
Dita com efeito

Devo-te os sentimentos
A cumplicidade
Os dotes
O caminho direito

Devo-te a fineza
A delicadeza
A rudeza
O que tenho ou não de perfeito

Devo-te a seriedade
A honestidade
A feminilidade
O laço mais estreito

Devo-te a alegria
O trabalho
A educação
O que me faz sujeito

E é assim que agradeço, Mãe
Com efeito
Tudo o que fazes
Por e para este sujeito
Que sempre será teu "filho"!
Deste ou de outro jeito.   


Bia Crispim

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

IARA DE LUZ

Ora iê iê ô!


A luz da lua era intensa. 
Brilho azulado que enfeitiçava o mundo, penetrava as coisas como feixes luminosos e mágicos. 
Branca, enorme, envolvia o ar de doçura e mistério.
Iluminava também aquela figura indecifrável, envolta em um manto que, sobre uma barcarola, aventurava-se nas águas calmas e lentas daquele riacho, conduzindo-se ao pântano.
Não sabia bem o que fazia ali. Buscava sossego, respostas. Sua vida estava misticamente envolvida com seres deste e de outros mundos. Escutava, via, sentia os daqui e os de lá. Mas não entendia por que tinha sido escolhida para vivenciar aquela experiência, a de ser Deusa em meio aos mortais, elo entre dois mundos tão opostos que se completavam e se atraíam.
No pântano, escuridão de galhos retorcidos, emaranhado de plantas e sons de água-noite-luar despertavam-lhe sensações de sombras, de presença de medo. Seu coração acelerado dava-lhe tensão e aguçava-lhe os sentidos. Porém, acostumou-se com o breu iluminado de prata. 
Não entendia por que estava ali. Não entendia nada. Mas sabia que estava para salvar a vida de um homem. Aquele por quem o amor verdadeiro já existiu. E talvez salvar a sua, também.
Esperava que os elementos da natureza se manifestassem. Mas o que existia a sua frente era apenas a imagem de um lugar brumoso, escuro e temeroso. Horrível! Cheio de ocultações e pavores.
Navegando, sentiu o barco estancar em um banco de areia e se viu parada diante de uma clareira. A lua tomava de conta daquele lugar. Assustada, desembarcou e pisou naquele espaço aberto banhado da energia da luz, de um sol da noite. Quando, de repente, viu passar aos seus pés, uma enorme serpente. Ser maligno que parecia querer intimidá-la atravessou seu caminho como muitas outras pestes mais já o tinham feito. Passou! Teve ímpetos de matá-la, mas não o fez.
Levantou a cabeça aos céus e sentiu a lua mais intensa, como que mais próxima. E o brilho agora ofuscante começou a projetar imagens de felicidade, compaixão e amor. E apoderada de tudo aquilo, viu quando uma mulher vestida de ouro, de cabelos negros, de pele branca como o leite da lua surgiu à sua frente, saída das águas.
Caminhando em sua direção, a Deusa das águas fazia florir de lírios seu caminho. Prateados com a luz da lua transformavam-se em pequenos pontos luminosos afastando cada vez mais a escuridão. 
Aquela mulher era feita de luz e água. Era a Iara. Mulher mística, doce e sedutora que irradiava uma força de Deusa-mulher-protetora.
Não precisou abrir a boca para falar nada. O que dizia era com os olhos. Como dois buracos negros que engolem o universo, seus olhos engoliram a visitante e transportaram-na numa viagem iniciada no útero de sua mãe. 
Em transe, compulsiva, o manto agora caído, a moça recebia suas respostas e aplacava as dúvidas de seu coração. Aquele ser místico mostrava-lhe tanto amor, todo amor que lhe fora dado na vida, que seu coração angustiado brotou em lírios. Brancos, docemente perfumados, cintilantes de luar.
E tão cheia de benevolência, brancura e amor ficou, que nem percebeu quando a entidade voltou para as águas, abençoando-a como filha.
Subiu no barco e retornou. 
Contrário a Creonte que conduz as almas para o submundo de Hades, ela agora saía da escuridão, do pântano, para colher os lírios, o amor, a bondade e a vida que não paravam de florir em seu coração.
Havia um sorriso na face, pois entendia que salvaria seu amado e a si mesma.


Bia Crispim

A CIGANA

Era dia de feira livre na cidadezinha. Muvuca de gente, gritos, cheiros, cores, sabores. Um sobe e desce de pacotes e frutas e animais e meninos puxados pelos braços chorando o doce não comprado. Tapurus negrejando sobre a carne apodrecida. Parecia.
Os paus-de-arara despejavam uma multidão que se aglomerava naquelas ruas tão cheias de vida, naquele dia. E no meio de tantas pessoas, um vestido longo florido, de cor escura, com pétalas rubras, esvoaçava ao vento, sacudia um leque para aplacar o calor e tilintava de tantas pulseiras, anéis, brincos e outros adornos.
Olhos negros penetrantes e oblíquos, pele de quem não teme se expor ao sol, caminhava em passo faceiro, distribuindo sedução, simpatia e mistério. Mulheres desejavam. Homens devorariam aquele jardim. Mas como quem tem um certo poder de superioridade, a Cigana, nada importunava.
Visão fixa naquilo que ela via. Zumbi de um universo mais que particular. Ela já conhecia o passado, o presente, e o futuro estava nas mãos de quem ela tocava.
Como ela via! Como sabia segredos de tantos! Como lia tantas histórias traçadas nas linhas, nos sulcos das mãos alheias. Aconselhava, profetizava e enchia sua bolsa de moedas. Não fazia aquilo só por dinheiro. Era um dom e necessidade de aplacar as dúvidas humanas.
Não era uma cigana dessas feitas em um curso por correspondência. Nascera assim, vidente. Era confiável como um oráculo do passado. Ser de luz e poderes divinos. Especial.
Porém, sabedora da vida de todos, desconhecia sua própria. Suas mãos eram como folha em branco, nada lhe diziam, nada lhe revelavam e isso a angustiava, a deixava temerosa. Ela só não sabia o que o destino reservava para si.
Um dia, tocando a mão de um jovem que, angustiado, pedia-lhe ajuda, sentiu algo crescer dentro de seu peito a cada linha que lia naquela palma calejada de menino da roça. Via aquele rapaz, que agora sofria de amor, amando ainda mais, num instante próximo. Feliz em sua labuta diária, cultivando sua horta, colhendo seu plantio, alimentando suas vacas. E voltando para casa, a comida quente deliciosa perfumada posta, o suco fresco da fruta fresca colhida no pomar, um menino que tinha sua boca seu sorriso possuía os olhos da mãe, esperavam-no à sombra do lar.
A criança tinha olhos oblíquos, sedutores e o pai derretia-se neles como um dia derretera-se nos olhos da mãe que lhe dera o rebento.
Naquele instante, erguendo a cabeça, a Cigana abriu um sorriso. Levantando seus olhos para os do jovem e como quem descobrisse um novo poder, agarrada ainda àquela mão, transferiu o que vira, como filme, olhos adentro, no coração do menino-homem. 
Ela viu sua vida lida por ele, tomado de surpresa. 
Os olhos abriram-se em felicidade e apaixonados saíram de mãos dadas rumo ao campo. Lugar reservado para a Cigana cumprir seu destino de mulher.


Bia Crispim

sábado, 10 de dezembro de 2011

A TRILHA

Trilhamos trilhas 
Que nos levaram
A trilhar juntos
Uma trilha só

É bom ter você nesses trilhos
Ouvindo a mesma trilha
Que nos invade de música, balanço
E boas sensações.


Bia Crispim