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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A CIGANA

Era dia de feira livre na cidadezinha. Muvuca de gente, gritos, cheiros, cores, sabores. Um sobe e desce de pacotes e frutas e animais e meninos puxados pelos braços chorando o doce não comprado. Tapurus negrejando sobre a carne apodrecida. Parecia.
Os paus-de-arara despejavam uma multidão que se aglomerava naquelas ruas tão cheias de vida, naquele dia. E no meio de tantas pessoas, um vestido longo florido, de cor escura, com pétalas rubras, esvoaçava ao vento, sacudia um leque para aplacar o calor e tilintava de tantas pulseiras, anéis, brincos e outros adornos.
Olhos negros penetrantes e oblíquos, pele de quem não teme se expor ao sol, caminhava em passo faceiro, distribuindo sedução, simpatia e mistério. Mulheres desejavam. Homens devorariam aquele jardim. Mas como quem tem um certo poder de superioridade, a Cigana, nada importunava.
Visão fixa naquilo que ela via. Zumbi de um universo mais que particular. Ela já conhecia o passado, o presente, e o futuro estava nas mãos de quem ela tocava.
Como ela via! Como sabia segredos de tantos! Como lia tantas histórias traçadas nas linhas, nos sulcos das mãos alheias. Aconselhava, profetizava e enchia sua bolsa de moedas. Não fazia aquilo só por dinheiro. Era um dom e necessidade de aplacar as dúvidas humanas.
Não era uma cigana dessas feitas em um curso por correspondência. Nascera assim, vidente. Era confiável como um oráculo do passado. Ser de luz e poderes divinos. Especial.
Porém, sabedora da vida de todos, desconhecia sua própria. Suas mãos eram como folha em branco, nada lhe diziam, nada lhe revelavam e isso a angustiava, a deixava temerosa. Ela só não sabia o que o destino reservava para si.
Um dia, tocando a mão de um jovem que, angustiado, pedia-lhe ajuda, sentiu algo crescer dentro de seu peito a cada linha que lia naquela palma calejada de menino da roça. Via aquele rapaz, que agora sofria de amor, amando ainda mais, num instante próximo. Feliz em sua labuta diária, cultivando sua horta, colhendo seu plantio, alimentando suas vacas. E voltando para casa, a comida quente deliciosa perfumada posta, o suco fresco da fruta fresca colhida no pomar, um menino que tinha sua boca seu sorriso possuía os olhos da mãe, esperavam-no à sombra do lar.
A criança tinha olhos oblíquos, sedutores e o pai derretia-se neles como um dia derretera-se nos olhos da mãe que lhe dera o rebento.
Naquele instante, erguendo a cabeça, a Cigana abriu um sorriso. Levantando seus olhos para os do jovem e como quem descobrisse um novo poder, agarrada ainda àquela mão, transferiu o que vira, como filme, olhos adentro, no coração do menino-homem. 
Ela viu sua vida lida por ele, tomado de surpresa. 
Os olhos abriram-se em felicidade e apaixonados saíram de mãos dadas rumo ao campo. Lugar reservado para a Cigana cumprir seu destino de mulher.


Bia Crispim

4 comentários:

  1. Muito criativo seu texto!
    Gosto dessas intervenções linguísticas, tais como:"Suas mãos eram como folha em branco"Metáforas interessantes.
    Beijos, Cigana Bia!

    Maria Maria

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  2. Obrigada, querida! Sempre bom escutar vc!

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  3. O relato de uma vida, que aquela que lia a mão das pessoas sendo cigana viu na mão de um rapaz sua vida ser traçada, o seu destino estava pronto e a felicidade já reinava nos corações dos dois amantes... Seus escritos quanto mais leio, mas desejo por sorver todo esse conhecimento cultural que já é alimento para o meu espírito... Muito bom ^^

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  4. Fico muito feliz em saber que o escrevo é alimento do pensamento. Espero que seja alimento para a alma e o coração, também.

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