Quem sou eu?

Minha foto
Descubra-me depois que adentrar na minha poética.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

IARA DE LUZ

Ora iê iê ô!


A luz da lua era intensa. 
Brilho azulado que enfeitiçava o mundo, penetrava as coisas como feixes luminosos e mágicos. 
Branca, enorme, envolvia o ar de doçura e mistério.
Iluminava também aquela figura indecifrável, envolta em um manto que, sobre uma barcarola, aventurava-se nas águas calmas e lentas daquele riacho, conduzindo-se ao pântano.
Não sabia bem o que fazia ali. Buscava sossego, respostas. Sua vida estava misticamente envolvida com seres deste e de outros mundos. Escutava, via, sentia os daqui e os de lá. Mas não entendia por que tinha sido escolhida para vivenciar aquela experiência, a de ser Deusa em meio aos mortais, elo entre dois mundos tão opostos que se completavam e se atraíam.
No pântano, escuridão de galhos retorcidos, emaranhado de plantas e sons de água-noite-luar despertavam-lhe sensações de sombras, de presença de medo. Seu coração acelerado dava-lhe tensão e aguçava-lhe os sentidos. Porém, acostumou-se com o breu iluminado de prata. 
Não entendia por que estava ali. Não entendia nada. Mas sabia que estava para salvar a vida de um homem. Aquele por quem o amor verdadeiro já existiu. E talvez salvar a sua, também.
Esperava que os elementos da natureza se manifestassem. Mas o que existia a sua frente era apenas a imagem de um lugar brumoso, escuro e temeroso. Horrível! Cheio de ocultações e pavores.
Navegando, sentiu o barco estancar em um banco de areia e se viu parada diante de uma clareira. A lua tomava de conta daquele lugar. Assustada, desembarcou e pisou naquele espaço aberto banhado da energia da luz, de um sol da noite. Quando, de repente, viu passar aos seus pés, uma enorme serpente. Ser maligno que parecia querer intimidá-la atravessou seu caminho como muitas outras pestes mais já o tinham feito. Passou! Teve ímpetos de matá-la, mas não o fez.
Levantou a cabeça aos céus e sentiu a lua mais intensa, como que mais próxima. E o brilho agora ofuscante começou a projetar imagens de felicidade, compaixão e amor. E apoderada de tudo aquilo, viu quando uma mulher vestida de ouro, de cabelos negros, de pele branca como o leite da lua surgiu à sua frente, saída das águas.
Caminhando em sua direção, a Deusa das águas fazia florir de lírios seu caminho. Prateados com a luz da lua transformavam-se em pequenos pontos luminosos afastando cada vez mais a escuridão. 
Aquela mulher era feita de luz e água. Era a Iara. Mulher mística, doce e sedutora que irradiava uma força de Deusa-mulher-protetora.
Não precisou abrir a boca para falar nada. O que dizia era com os olhos. Como dois buracos negros que engolem o universo, seus olhos engoliram a visitante e transportaram-na numa viagem iniciada no útero de sua mãe. 
Em transe, compulsiva, o manto agora caído, a moça recebia suas respostas e aplacava as dúvidas de seu coração. Aquele ser místico mostrava-lhe tanto amor, todo amor que lhe fora dado na vida, que seu coração angustiado brotou em lírios. Brancos, docemente perfumados, cintilantes de luar.
E tão cheia de benevolência, brancura e amor ficou, que nem percebeu quando a entidade voltou para as águas, abençoando-a como filha.
Subiu no barco e retornou. 
Contrário a Creonte que conduz as almas para o submundo de Hades, ela agora saía da escuridão, do pântano, para colher os lírios, o amor, a bondade e a vida que não paravam de florir em seu coração.
Havia um sorriso na face, pois entendia que salvaria seu amado e a si mesma.


Bia Crispim

2 comentários:

  1. Adorei esse post, muito belo... Gosto muito desse estilo de escrita bem detalhado... E faz essa referencia e menção a mitologia grega que é riquíssima de seres misticos que envolvem essa dança entre a vida das belas ninfas das florestas e rios e a passagem para a morte sendo conduzido pelo Creonte ate o submundo do deus da morte e agonia eternas Hades...

    ResponderExcluir
  2. Minhas influências literárias e, inclusive, religiosas estão aí... Também gosto muito desse texto.

    ResponderExcluir