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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

DOCE CANAVIAL

A meu grande irmão, Damião Vieira

Da terra preta brotou a raça,
Da Negra pele, um canavial,
Cana, açúcar, senzala e praça,
Conceição e reza pro homem mal.

Menino mirim das terras de Oxalá,

Do seu suor, a força laboral,
O doce melado pra forte-ficar,
Palácio Antunes, monumental.

Negra história se formara,

Na cabeça do menino-homem, 
Memória grande, tão clara,
Avivando, Madalena, o ontem.

"Oitizeiro", canto de lembrança,

Barões e escravos, antigos fatos, 
Hoje prosperidade e esperança, 
Negro, dono de si e de seus atos.


Bia Crispim



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

GRANDE LEOA

A Vovó Martiniana


Era um dia ensolarado, brilhante e quente. O céu azulíssimo lembrava os olhos de minha avó.
Minha cabeça voltou no tempo e diante de mim surgiu a imagem daquela mulher pequena, branca, de olhos azuis e cabelos curtos, sorriso alegre e vestidinho florido um pouco abaixo dos joelhos, abria-me os braços cheia de carinhos e afagos.
Levava-me para a cozinha onde o fogão de lenha preparava doces, cocadas de goiaba.
Como os cheiros confundiam-se ali. Cheiro de fogo, de madeira queimada, cheiro de goiaba e coco e peixe que chiava sobre as tachas de ferro. Cheiro de alfazema que exalava do corpo de minha avó com os olhos de mar e céu.
Se os cheiros eram bons, imagina os sabores. Inconfundíveis. O café forte e amargo que aprendi a beber descobrindo seu gosto. A sopa deliciosa de "boquinha de noite". A coalhada adoçada com açúcar mascavo ou mel - colhido ali mesmo, no quintal.
Minha memória fez-me ter... Quantos anos?! Talvez 10, ou menos. Fez meus olhos marejarem. 
Aquela mulher ensinou-me o que era "permitir".
Permitir ser criança, sem fronteiras, que explorava o grande "muro" correndo, brincando, pulando, colhendo folhas, flores, frutas. Mexendo nas hortas, perseguindo as lebres, fugindo de canoa pelo açude, que banhava a porta de trás da casa. 
Vovó ria, com seus olhos de mar. Martiniana era seu nome. 
A alegria em ter-nos por perto, deixava esse mar lindo, cheio de verão. Cuidava de todos, aninhava todos, como gata mãe que era. E como gostava de gatos! 
Seu lar era uma cama de gatos, muitos, tantos, cores, tamanhos, miados e peculiaridades. Havia gatos-filhos, mimados, com lugar cativo embaixo da rede de vovô. Ou com cama reservada para dividir com os visitantes. 
Lembro-me de vovó preparando peixes frescos, recém pescados para todos os seus meninos e meninas felinos. 
Acocorada com as saias presas às pernas, ela tirava as escamas e vísceras, o fel amargo e deixava o filé, as guelras para serem disputados à tapas e grunhidos pelos bichanos.
Grande leoa, minha vó pequena. 
Entendia daquele universo animal como se sua espécie fosse outra,  felina. (E qual mulher não o é?)
Sua grande festa era ver a casa cheia em dias de Nossa Senhora dos Remédios. Devota, religiosa, dedicava parte de seu dia às orações. 
Dormia cedo, acordava cedo. Atividades para o dia todo não faltariam. Mulher enérgica, plena de vida e alegria. (Quanto não herdei de ti?!)
Muito herdei daquela pequenina. 
Herdei amor, herdei cozinha, herdei felinidade, herdei doce, herdei peixe solto dentro d'água, herdei sorriso, herdei aconchego e recebimento, herdei oração e silêncio, herdei energia e agilidade, herdei a pele branca. 
Não herdei uma coisa: os seus olhos azuis de mar.
Mar de Martiniana. 
Mar que me traz em ondas de lembrança a figura de minha avó, a qual, decerto, está no céu, tão azul e lindo como o dia de hoje.    


Bia Crispim

terça-feira, 11 de setembro de 2012

BODAS DE AMOR

Vinícius de Morais disse, um dia: "Mas que seja infinito enquanto dure."
Falava ele sobre o amor.
Amor, palavra sublime, repleta de significado e tão real no ninho em que fomos criados.
Amor que existe entre homem e mulher, entre pai e filhos, entre mãe e filhos, entre filhos e filhos.
Amor que nos faz família, que nos une, que nos completa. 
Amor que nos é ensinado na forma de respeito e tolerância, de aconchego e bondade, de doação e união.
Amor que vem embalar nossas noites na varanda com papai tocando suas modinhas e serestas, acompanhadas ao som doce e suave da voz de mamãe.
Amor que se apresenta na forma de mesas fartas espalhadas pela casa pra alimentar todos de um vez só.
Amor que vem na oração diária e contínua de proteção, dos terços rezados em família.
Amor que vem da cama grande em que nos aninhamos todos num só momento.
Aprendemos a amar todos os dias em nossa casa. 
Nossos professores, nossos exemplos, nossos pais transbordaram o tempo e hoje, 50 anos depois, continuam a nos orientar sob o julgo do amor.
Amor que as gerações futuras transmitem como legado desse um clã. 
Comemorar esse momento tempo é uma celebração, não a uma relação de duas pessoas,  mas sim, a celebração de um sentimento único, puro e verdadeiro que se mantém, que se propaga, que se transmite para os 6 filhos, os 11 netos, as 2 bisnetas. Que se transmite na sobrinha-filha, na sobrinha-neta. Nos agregados todos que adotaram esse lar como seus.
Pai e mãe de muitos, além da carne. Pai e mãe de espírito. Casal exemplo em que o amor  faz-se e dá frutos.
Casal amor em quem Deus faz-se presente e manisfesta-se como sentimento bonito e contagioso.
União que há 50 anos transmite o ensinamento maior do Criador: o amor.
50 anos para ser lembrado como resultado da temperança divina, que só o amor é capaz de dar.
"Mas que seja infinito enquanto dure", disse o poeta. 
Sim, que assim o seja. Que seja infinito, porque amor não se acaba. Que dure mais do que o tempo terreno nos permitir, porque amor é imortal e transmissível.
Amor, infinito e duradouro. Eis o grande legado dos nossos pais.
50 anos. Bodas de ouro. Porque devemos coroar esse momento com glória. 
Com o ouro que não se compra, porque não é dourado nem é metal. Porque não é o ouro dos reis, da riqueza, nem do poder.
Ouro este que é sentimento glorioso, rico e poderoso, presente de Deus aos homens, tão difícil de encontrar ultimamente.
Parabéns, papai e mamãe, pelas bodas, pelo ouro em forma de sentimento, em forma de amor. 
Parabéns pelos 50 anos de lição no amor e para o amor.
Parabéns pelo amor dos dois.
E obrigado pelo amor que nos presenteastes, hoje e sempre.


Bia Crispim (em nome de todos os filhos, netos e bisnetas)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

HÁ DIAS BRANCOS

A Juliano Varela, meu Nêgo.

Há dias em que uma palavra te inunda de LUZ. Feito estrela cadente que alumia desejos; feito clarão de relâmpago rasgando a tempestade; feito lampião a aclarar o Sertão.
Há dias em que a CHAMA se acende viva e quente e pulsante e vibrante, dentro e fora.
O FOGO amarelo azulado luminoso aquecedor veio do escuro.
Escorreu das mãos de um NEGRO.
Meu... tão meu quanto minha LIBERDADE.
Saiu do oco cheio negro de sua cabeça coberta de CACHOS, os quais aninho entre meus dedos em dias de CARÊNCIA e TROCA.
Saiu de um negro MENINO, antigo aprendiz que fez do MESTRE, seu PUPILO.
Papéis invertidos na folha branca do DESTINO.
Há dias BRANCOS que nascem do negro, do ESCURO, da pele melaninada, da audácia própria da COR de quem, negro, se faz DOUTOR. Rompedor de BARREIRAS.
Quanta CLAREZA ainda não sairá dali.
Quanto de ENSINAMENTO o novo mestre não deixará sorver de seus poros, tão cheios de AXÉ e REGGAE, de VOLÚPIA e AMOR, de LIBERDADE e LIBERTINAGEM.
Negro LIVRE tão PRESO a mim.
Tão preso a minha história.
Há dias brancos, sim, senhor!
Há dias brancos, sim. Sim, senhora!
Dias em que PERMITIR ser FELIZ e AMADO não é escolha, é roleta-russa. De onde a bala certeira atinge como flecha de CUPIDO e enche e transborda o ESPÍRITO.
Nesses dias brancos de tão negro, OVULO e dou CRIA.
Minha cria, meu ORGULHO, meu MENINO-HOMEM-MULHER-SER INQUIETO.
Um dia branco... Outros tantos... Muitos outros.
Dias de CRUZAMENTO, de INTERSECÇÃO em que perder-se um no outro é COMPLETUDE.
Dias brancos! Cheios de RISOS e FESTAS, e BEIJOS e ABRAÇOS e OLHARES...
CARINHO AMOR IMENSO que a mente registra como algo bom: AMOR AMOR AMOR.
VITAL, meu amor. Tão nosso!
TRANSCENDÊNCIA de almas que faz da DISTÂNCIA, PRESENÇA; da LIBERDADE, PRISÃO.
SINTONIA, SIMBIOSE, SINTO esse Negro na minha alma branca-negra-mulata-índia-fêmea.
Sinto os dias brancos que se fazem PERTO-LONGE do meu aprendiz-mestre.
Dias brancos em que seu ensinamento são as PALAVRAS que brotam de seus lábios tão doces e, às vezes, tão amargos de REALIDADE.
Palavras que me fazem ser feliz, completa, MULHER, questionamento e ICOGNITA.
Meu outro lado. Meu outro ser.
Ser meu contrário, meu PARADOXO...
É! Há dias brancos.


Bia Crispim


terça-feira, 4 de setembro de 2012

HÁ DIAS NEGROS


Há dias em que o dia não faz sentido... 
Só a escuridão parece clarear e esquentar nossos pensamentos e angústias. Sinto tristeza e fome... Desconsolo e carência... 
Falta de... 
Não sei!
Apesar de ter recebi quatro EU-TE-AMOS, de homens diferentes,  por meios diferentes, de  relações diferentes e em circunstâncias diferentes ... Tudo continuou igual.
TE AMO UM TANTÃO ASSIM, disse-me o primeiro. 
Como reforço de amor e amizade involuntários, que brota de momentos em que a mente nos joga um sorriso no rosto e uma saudade no coração;
AMO VOCÊ DEMAIS, MINHA DEUSA... Desabafo e elogio sincero de quem fez pra mim um templo e um altar. E ainda o faz.
AMO VC - Linguagem moderna de quem me ama virtualmente e mesmo com meus defeitos não conhecidos ainda insiste em dizê-lo.
TE AMO, LEMBRE-SE DISSO, disse aquele que me fez Aphrodite em seus poemas e que me tem como sua.
Mas nenhum dos AMORES me pareceu quente, nenhum afastou as sombras, nenhum me fez tremer e me jogar num abismo de EMOÇÕES sem fim. Nenhum iluminou meu ser como um sol. 
O carro de Apolo não me transportou das nuvens negras que me cercavam, que me cercam hoje.
(Nix, Calígena, deusas presentes.)
É. Há dias negros. 
Tão escuros que os EU-TE-AMOS perdem-se no enigma da ausência da LUZ. 
Olhos cegos tornam os ouvidos surdos e o coração inerte.
Sinto compaixão de mim mesma. 
Dia sem sentido, sem VIDA... Dia escuro e brumoso. 
Em que os poetas mais lúgubres, mais pessimistas, mais intimistas me chamam para o clã.
Aceitam-me para ser parte dos obscuros, dos Byronianos, dos Anjos e dos Azevedos. 
Chamam-me para o banquete Romântico-Simbolista que se apodera de mim.
E o que eu só queria era o CALOR, a chama, o EU-TE-AMO que me enferveceria, que me seria combustível, que me afoguearia as carnes por dentro e por fora e me mostraria o brilho de estar e me sentir VIVA, bem viva. Feito Phênix renovada!
Luz que faria do dia, um SOL; dos negros pensamentos, dias de PRIMAVERA; do que me corroe, em combustão imensa e intensa de SENTIMENTOS.
Há dias negros, sim senhor! Há dias muito negros, sim senhora!
E eis que hoje é um destes!
Estou só, estou no escuro, estou náufraga e isolada. 
Perdi-me em mim mesma e não encontro a saída. 
Tenho medo que meus MEDOS me devorem. Mas preciso enfrentá-los. 
Não devo pensar nos EU-TE-AMOS que meus ouvidos receberam sem que meu coração percebesse. Sem que ele os entendesse.
Devo ouvir e pensar nos CORAÇÕES de onde eles partiram. 
De quatro amores, quatro homens... Quatro situações, quatro meios.
Quem disse, falou-me com AMOR, sincero e verdadeiro. Bem o sei!
Preciso inundar-me com isso, e encher-me a ponto de juntar TODOS em UM só.
Para que o FOGO me brote nas veias e acenda-me como CHAMA, como AMOR, como ALEGRIA, como ENERGIA e VIDA de que sei que sou feita.


Bia Crsipim

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

AR DE MULHER

Meus agradecimentos a SanThiago Brenno pelos "casulos".

O vento sopra as cores
As asas se abrem em ousadia
As flores desabrocham
Borboletas, casulos, mulheres e sonhos
Desejos de liberdade e voo
Pele macia de pétalas
Asas coloridas de primavera
Cheiro de mulher no ar


Bia Crispim

EM CADA VERSO

Em cada verso
Uma eternidade
De tudo aquilo
Que morre comigo
Que não mais me pertence
Pois agora é teu
Se assim o quiseres

Descartada numa gaveta
Guardada no coração
Minha ideia é palavra
Que nunca foi minha
Que sempre foi minha 
E sempre será

Em cada verso
Um pedaço
Fragmento
Fagulha
Estilhaço
Do que fui
Do que sou
Do que quero

Acorrentada à liberdade
De falar e escrever
Me faço
Meus limites ultrapasso
E chego até ti
Como um sopro
Uma brisa
Ou um vendaval

Em cada verso
Expando minh'alma
Cuspo fora meus dissabores
Vomito o erro que consumi
Exponho minha fragilidade
E minha fortaleza
Sou paradoxo

Entre alma e carne
Entre amor e ódio
Entre certeza e dúvida
Entre mim e ti
Um mundo
E um abismo

Em cada verso
A música
A rima
E o sentimento
A reflexão de um tempo
Que trago comigo
Mas que não é só meu

Por isso
Toma-o
Consuma-o
Divida-o comigo
E se for humano
Chore e ria
Como faço agora

E escreva um verso
Pra acalmar teu ser
E talvez, dar paz
Ao meu


Bia Crispim

JA-CA-IU

Já é
Já foi
Já era
Jaca caiu na panela
O doce te espera

Bia Crispim

RIO SECO

No leito
Antes rio
Duas manchas
Duas margens
E a terceira

Desenhado
Caminho de terra
Antes água
Antes peixe
Virou pó

Leito leite
Branca vereda
Brilham pedras
Antes estrelas
Num corpo só


Bia Crispim

QUERUBIM BARROCO

Quero sim
Querubim
Só pra mim

Diabim
Bem danadim
Me amando assim

Bia Crispim

PAISAGEM

Na estrada entre Acari e Currais Novos

Pedra densa imensa
Bloco compacto quebrado rachado
Rocha maciça uníssona
Mosaico de mármore
E cores ocres mortes
Cinza sem vida
Rameja de cada fresta
Um espinho é uma festa
Verde cacto fruta e cor e flor
Mandacaru a se compor
De seiva de pedra
Pedra sem vida
Seca de morte
Quente de Sertão
Estiagem
Casa de cobra e aranha
Cerca cercando a montanha
Ramagem jurema e terra
Coberta
Pedra
Dentro de si o sol
Engolido por trás
Rajada serrote
Morte
Da raiz que não se faz



Bia Crispim

UNI(R)VERSO

fluxo refluxo lusco-fusco de luz se metendo se mesclando se mexendo se movendo amanhecendo na troca de cor corrida comprida coronária  coração pulsação vibração agitação de gente de lente de pente de repente despertar acordar levantar ar da manhã e andar a claridade clareza claramanhã clandestina clama o dia que um dia há de vir vem com o vento vontade varrendo noite noturna escuridão natural visceral sexual que encobre que esconde que escorre entre corpos entre coxas entre bocas entre poros entre pernas gozar o gozo do escuroclaro do clarescuro é viver dia-a-dia hora-a-hora minuto-a-minuto segundo-a-segundo relógio tempo passa atravessa repassa a pressa do dia que já é noite que já é dia que já é ciclo círculo circulador redoma redonda que se faz que se quebra num sopro num ato num átimo num piscar de olhos e bocas e pulso e latejo e lampejo de vida que vive e morre que morre e vive que é morte diária registrada no diário na página na folha na placa na lápide imaginária do tempo que se desfaz e se faz e se inventa e se alimente de homem menino cachorro e planta quando vira mortevida em que um vira o outro noutro dia sempre um dia todo dia é mais um dia correia que corre que move máquinatempo máquinavida maquinalmente construída de dia e de noite de noitedia e dianoite e noitedia e dianoite interminável inabalável indecifrável enigma mistério oráculo do que não se sabe e já se sabe pois já houve e só se repete só se repete só se repete só se recicla só se renova só se ré de ré voltar de ré repetir de ré não se vai pois nada volta só vaievolta e vemevai e voltaevai e vaievem pêndulo tempo vida é o que há é o que houve e haverá.

Bia Crispim

SONHO DE FELICIDADE

A meu amigo, Carlos Júnior

Os dedos do sol despertaram-me suavemente. Calor frio anunciando o acordar que já gritava lá fora.
Serenata de ruídos sonolentos e pássaros compunham o concerto matinal.
O aroma do queijo derretido na chapa e do café com leite embrenhava-se narina adentro. Os vizinhos já estavam de pé.
"Tenho que levantar", pensei.
Apesar de o corpo ainda pedir um pouco mais de descanso, eu tinha uma viagem a fazer. Iria conhecer as intensões de um homem que me atraiu e que disse, um dia, que me amou.
Preguiça, bocejo e alongamento. Estava prestes a abandonar a cama e o sono para atirar-me em um sonho: o de ser amada inteira e plenamente.
O banho gelado fez a pele abrir os olhos. Acho que foi aí que despertei, de verdade.
Havia ainda uma bolsa para preparar, havia gatos para alimentar... "Haveria algo pra comer?"
Não ali!
Cabelos penteados, dentes escovados, asseio feito, encontrei-me pronta para a partida.
À porta, sensação estranha de que não voltaria mais. Todavia, duvidei do pensamento. "Por que não voltaria? E minhas gatas?"
(...)
A viagem foi de resto um misto de sono-sonho-realidade. A cadeira macia, as cortinas fechadas e o ar-condicionado convidavam Morfeu a acompanhar-me na trajetória brumosa que começava.
Estava eu em frente daquele rapaz, tão branco, tão lindo, de voz tão firme e aparência tão decidida.
Sem muito tempo para formalidades, de súbito tomou-me num abraço e num beijo. Boca pescoço colo seios ventre... Eu estava nua, no meio de um grande terreno reservado para a montagem de circos, onde eu, agora, era o espetáculo.
Aquele homem explorava meu corpo enquanto os solavancos reais da viagem pareciam-me espasmos de gozo incontido. Gemia, contorcia-me. Ele, com a cabeça entre minha pernas fazia-me esquecer que havia mais alguém no mundo além de nós.
Numa voracidade, tomou-me e então eu tremi e gritei. Urrei, deixei-me possuir até que o êxtase apoderou-se de mim...
Um suave toque de mão masculina despertou-me: "Chegamos, senhora!" - disse-me o cobrador do ônibus.
Pisquei os olhos, bocejei, espreguicei-me feito gata. Estava molhada.
Sensação de prazer pairava no semblante.
Então levantei-me e parti para ver o sonho tornar-se realidade.
Um homem estava a minha espera. E eu mais que nunca tinha fome e sede dele.
Sabia agora a resposta do estranho pensamento de que não voltaria.
Um sorriso acompanhava-me quando entrei no táxi.
- Para onde, senhora?
- Para a felicidade, meu caro. Para a felicidade

Bia Crispim

CANÇÃO DA MANDELLA EXILADA

A Will Campos, meu irmão 

Minha terra 
Tem coqueiros
Onde Madonna vem cantar

Em cismar a dois
À noite
Mais prazer encontro eu cá

Minha casa 
Tem coqueiros
Por onde atravessa o luar

Minha casa tem mais vinhos
Mais cristais e mais música
Minha casa tem mais amigos
E licor de jenipapo pra brindar

Não permita Deus que eu morra
Sem que antes eu vá lá
Em Paris
Sobre a torre
Minha casa ficou lá.

Bia Crispim

SIMBÓLICAS

Símbolos me atraem.
Me incomodam. Me completam. Me confundem.
Símbolos, códigos, gestos, cores, formas,
Estrelas, astros, animais, pedras, ossos,
Sangue e ar. Tempo simbólico.
Nimbos. "O horizonte tá fiando chuva".
Rasga-mortalha, morte.
E/ proibido. 
Arrepio na pele, frio ou paixão.
Espelho quebrado é seu azar.
A flor de mandacaru traz mudança.
São José é chuva e verde, a esperança do Sertão.
"Coelho é ano de fartura" - diz o chinês.
A saúva ganhou asa, vai brotar.
Usei preto no velório e o padre era roxo de Nanã.
Vermelho pra parar.
Fique alerta que amarelo é ouro,
É vaidade de Oxum.
Polegar em riste sempre dá certo.
Os símbolos me confundem.
Me encantam. Encontro-os lá e cá.
E as runas e os búzios e as cartas dizem-me do futuro.
Cresci entupindo-me do místico, da bruxaria, da mandinga e da crença.
Cheia, cheias de símbolos.
Seu olhar me devora, sou presa.
Mas viro onça, fênix, gata.
Vermelho, luta e sangue, branco da paz, se misturam na "aurora" de Drummond.
A coruja, sábia, a serpente audaciosa e traiçoeira 
E o dragão cuspindo fogo e prosperidade.
Na leitura da mão, coração em brasa.
Um anel me prende.
Incêndio interno: amor ou úlcera?!
Símbolos
Eu sou a Esfinge.
Sou seu oráculo.


Bia Crispim

TEMPOS DE MORTE

A morte tem espreitado meus lados
A navalha abriu o ventre
Em bandas
Duas vezes me cheirou

De súbito

Uma substância
Fez arriar 
O pilar, a viga mestra
Prole em alvoroço

A morte deu sinais
-"Estou próxima", dizia

Fragilidades humanas
Homens, o que somos?

A vida morre de medo da morte
Nosso paradoxo

O cromossomo defeituoso
Manifestou-se
Progrediu
Ganhou nome:
Steinert

Era assim que a morte 
Apresentava-se depois
De ouvir os músculos
Em bombardeio

Som de morte
Guerra interna

E do lado de fora,
Pranto e dor
Dúvida e inutilidade

E a criança
Dengosa
Saiu do núcleo familiar
Arrebatada
Ganhou leito, cuidados
Remédios
Outra família

"O cuscuz de vovó é melhor"
Saudades de casa

A morte assustou
Assusta
Criança. idoso
Homem, mulher

A morte espreita meus lados
Todos
Sempre
E o que nos resta
É choro e Deus

Preciso descansar
Ponho "o rosto no travesseiro
fecho os olhos para o ensaio"

A morte habita em mim.


Bia Crispim

CALÍGENA

A Adriano Nunes e sua Gaya

Pousada sobre o mundo
Escuro, obscuro, escondia
Um buraco, um abismo
Quem sabe a morte

Feminino

Lado enigmático do Caos
Mulher, fêmea
Brumosa e solúvel
Mistério de noite
E dia sem sol

Tempos de dúvida

De desânimo e desamparo
Desejo de aconchego
E corpo quente
Perto
Dentro

Picos de vulcão encobertos

De névoa
De maciez
De beleza e enigma
Calígena

Bia Crispim

segunda-feira, 16 de abril de 2012

ESPAÇO

A Santhiago Brenno, grande amigo.


Uma voz
Palavra criadora
Fez o Espaço


Espaço 
Vitrine divina
Lugar de eclosão
E surgimento


Útero, Espaço de vida
Semente, Espaço de broto
Germinação do novo
Do inédito


Espaço
Aberto ou fechado
Longe ou perto
Alto ou baixo
Grande ou pequeno


De aconchego, colo
Cama, Espaço de amor
Casa, Espaço de família
Céu, de estrelas


No Espaço entre terra e firmamento
O horizonte
Entre praia e mar
Ondas
Entre uma palavra e outra
Espaço e silêncio


Lugar para preencher
De tudo
De amor
De harmonia
De alegria e beleza


Entre os lábios
Espaço aberto para o sorriso
Abertos braços
Espaço para o abraço


Canto, recanto
Morada e trabalho
Espaço para viver, amar e labutar
Mesa, Espaço para a comida
Para escrever e criar


Papel em branco
Espaço para invenção
Coração sem amor
Espaço para a paixão


Corpo, Espaço grande
Onde o cheiro se encontra
Onde a cor se molda
Onde a moda se faz
Espaço vivo de sentir


Espaço de encontro
Igreja, clube e praça 
Cadeira de balanço na calçada
Espaço para a prosa


Noite sem lua
Espaço pros astros
Dia sem chuva
Espaço pro sol


No Espaço
A aparição
A criação
E a existência


No Espaço
Me faço
Me crio
Me propago


No Espaço
Evoluo
Cresço
Atinjo
E enlouqueço


Por mais Espaço
Por todos os Espaços
Para que onde quer que ele exista
Haja uma parte de mim.




Bia Crispim

REESTRUTURAR

Dei sorriso
Ouvi felicidade

As palavras
Os sentimentos
Misturados
Unidos

Dei-me
Ouvi

O perdão
O amor
A alegria
E nossa cumplicidade

Dei perdão
Ouvi gratidão

Desculpe
Eu te amo!

As palavras
Engasgadas
Entaladas
Bloqueadas

Dei amor
Ouvi sorriso

Os sentimentos
Aflorados
Machucados
Desabrocharam 
Redimidos




Bia Crispim