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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O CÉU ME FEZ CRIANÇA

Acompanhei com os olhos
Um cavalo alado
Que virou uma bola
Num piscar de pestanas

E no sopro do vento
Dois olhos se abriram
E uma enorme boca
Sorriu para mim

Fiquei feliz
Porque as nuvens no céu
Fizeram-me rir
Feito criança


Bia Crispim

LÁGRIMAS

Água
Poder de purificar
De limpar

Rica de sentimentos
Lágrimas
Água da alma

Alma que se desmancha
Em choro
Em água
Que lava o rosto
Que leva a dor
Que rega a alegria
Que nos seca por dentro

Água, lágrima
Brotando de dentro
Expondo meu ser
Aos olhos de quem não chora
De quem não senti

Rio que me dilui
Que me enfraquece
Que me fragiliza
E me deixa vulnerável

Água
Elemento universal
Solvente
Eu, solúvel

Derretida em mim mesma
Convertida em água
Em lágrimas
Em pranto
Em mágoa
Em dor
Em alegria
Em felicidade

Água
Poder de purificar
De limpar

Higiene da alma
E do coração

Lágrima
Purifica meu ser
E regue-me
Com as minhas emoções


Bia Crispim

ELEMENTOS

Para aquele que eu mais amei, Marlon Presley Carneiro


O vento levou a água
A água molhou a terra
E tudo ficou frio.

O fogo aqueceu-me.

E o quinto elemento 
Foi o que partiu de nós.

Bebi da tua água
Plantei em tua terra
E você, como um vento, 
Se foi!

O fogo aqueceu-me.

E o quinto elemento
Só doía em mim.

Bebeste muitas águas
Andastes por várias terras
E um dia o vento soprou
Em teus ouvidos
Um cheiro de saudade
De aconchego
De calor

E o quinto elemento
Brotou em ti
Como brotam as ervas na horta.

Então você voltou!

Pra beber da minha água
Pra plantar na minha terra
E pra ouvir o vento gritar
Que o quinto elemento
É quente, é fogo
É nosso Amor!


Bia Crispim

MÁXIMA

Uma máxima é sempre um máximo
                                                          Quando invade o coração.


Bia Crispim

A DESCOBERTA DO MUNDO

A Mariana Leopoldina, mais viva que a própria Vida.


Criança
Ânsia
De aprender
De descobrir

Infância
Inocência
Curiosidade latente
Um mundo de porvir

Mãos, olhos, pés e boca
A boca que prova tudo
A mão que toca tudo
O olho que vê sempre mais

Vivas partes independentes
Em busca da descoberta
Do novo
Do inusitado

Criança Ânsia
Com pressa
E anseio
De saber
De sentir

O mundo é pequeno
O sabor é pouco
As sensações são tudo
Tudo que está pra vir

A dor
A alegria
A fome
O frio e o calor
Descobre-se

A língua
As palavras
O sentido delas
E seus sons
Despertam-se

E num trê-lê-lê
E num blá-blá-blá
A criança
Ânsia
Não se cansa de sonhar.


Bia Crispim

domingo, 15 de janeiro de 2012

QUE QUERO!?

Quero chegar em casa e encontrar um elogio, um bilhete, uma fotografia.
Quero sentir a sensação de ser desejada.
De que se é querida, amada.
Talvez uma aventura!
Ou um amor de fato.
Quero um toque, um beijo, um abraço apertado.
Pernas, lençóis e alguém do lado.
Quero companhia, calor, talvez, sexo.
Uma respiração bastava!
Um coração pulsando ao meu lado seria acolhedor.
Quero ser ave-ovo, pra estar sob.
Ou filhote de gata, aninhada.
Quero alma, corpo.
Fungado, ronco e suspiro.
Quero acordar no meio da noite e não sentir frio.
Quero!
Sou felina, canina, menina.
Bicho de bando, manada, rebanho, família.
Não sei ser só, não sei ser silêncio.
Sei outras coisas, muitas coisas.
E sei o que quero:
Quero você, o mundo, fazendo todas minhas vontades.
Pra depois dormir em meus braços.
Feito boneca de pano que, na infância, afasta o pesadelo da solidão.
 Bia Crispim

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

DUAS PENAS DE UM SÓ BICHO

 Esta é mais uma produção ligada ao projeto de livro co-escrito por mim e meu amigo Matheus Ferreira. Deleitem-se!


As galinhas assustadas no terreiro adivinhavam chuva grossa que estava por cair. Penas em polvorosa. Asas abertas num voo que nunca chegava. (Pra que asas se não podem voar?!)
Penas protetoras abriam-se em leques tangendo os pintos todos loucos com o histerismo da mãe. Cococococococococococococococó... interminável e estridente. Galinhas! Bicho de cloaca. Vagina-ânus que fecunda, excreta e põe. Órgão vital. Interessantes, as galinhas.
E o cacarejado continuava até aninharem-se em poleiros, galinheiros ou embaixo de sacadas. Pintos colhidos ou ovos aquecidos ainda por vingar. (Se não viesse o granjeiro apanhá-los quase na boca da cloaca.)
Ovo. Outra coisa interessante! (...)
Naquele lugar as penas eram muitas, de galos, galinhas, pintos. Pombas da paz branca e de muitas outras cores. Penas que olhavam, com muitos olhos. Era o pavão. Ave amostrada e exibicionista. Rabo leque. Pena espetáculo. As galinhas paravam pra olhar, assim como as mulheres. Mas coitada da pavoa, tão desadornada! As mulheres deveriam ensiná-las a se enfeitarem.
Penas negras, anunciadoras de desgraça e morte apareciam por ali, também. Urubus. Bichos que um dia, de plumagem branca, enegreciam-se da podridão, da morte de que se alimentavam. Pena velório.
Outra pena, alvinegra, tão perigosa, de bicho que "pega, mata e come". Pena de música e voo certeiro. Carcará, rei do Sertão. Pena caçadora, pena voraz.
As galinhas morriam de medo desta e daquela. Penas que traziam consigo o gosto de sangue e fim de vida.
Havia as penas coloridas de outras aves que não se sabe quantas: tetéus, galos de campina, anuns, garças, concrizes, rouxinóis e quem sabe mais?!
Os meninos com gaiolas sabem e colecionam todos. Gaiolas que aprisionam penas. Até que um dia, elas fogem das celas ou os meninos perdem o interesse e deixam-nas voar. (Se não desaprenderam a fazê-lo, ainda.)
Os meninos, ao contrário das aves, não voam. Ou voam?! Voam sim!!! E voam com penas.
Penas longas de pontas afiadas e ocas, besuntadas de tinta negra, que deslizam sobre os papéis, sobre as linhas paralelas, desembestadas em voos longos.
As galinhas invejam mais os meninos que qualquer ave. Vendo-os debruçados em mesinhas, com suas penas em riste, cabeças olhando o terreiro, onde elas só ciscam, veem-nos voarem. Elas ficam ali, pondo ovos e pintos. Só.
E o engraçado é que os meninos, mesmo sem cloacas, também põem. Ovos imaginários onde clara e gema se misturam em histórias e estórias. Põem aves e outros bichos capazes não só de voarem, mas também, de falarem e construírem cidades, até.
Os meninos de penas. Penas criativas. Penas curiosas. Penas produtivas.
Aqueles meninos foram criados juntos, como os pintos, ali, nos mesmos currais, vendo as mesmas galinhas, perus, urubus, pavões, concrizes e só Deus sabe mais quantas aves e outros bichos todos.. Aprenderam a amar e viver aquilo tudo, juntos. Saborearam de mesmas vivências e experiências. Comeram das mesmas galinhas cabidelas, ou do pé seco, ou caipiras. Perus de Natal. Penas temperadas.
Aprenderam as letras juntos e alçaram voos no mesmo momento. Quando correram atrás daquele peru e arrancaram-lhe duas penas, para que com elas pudessem escrever todas as asas que já nasciam feito plumagem, feito canhões esperando brotar em letras capazes de voar.


Bia Crispim

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

PALAVRAS EM SILÊNCIO


Quando há silêncio, tudo parece não existir. Só o silêncio! O mundo fica em estado de inércia, de quietude e de apatia. Obscurece-se o universo. Não há perguntas, muito menos respostas. Não há contato porque as pessoas parecem não existir. Móveis dentro de uma casa vazia. Não há trânsito, troca ou a ideia de que existe vida, pessoas, interações. Não mais há.
O silêncio abre apenas lacunas, dúvidas, desespero e solidão. Não ouvir um som, gutural que seja, é desestimulante. E por que não, desesperador!
(...)
Falar só já não basta. Não sei como seria meu mundo sem o som das coisas, das palavras. Talvez se nunca as tivesse ouvido antes, seria normal. Até interessante. Quem sabe?! Sei que os sons todos me movem, as vozes das pessoas me causam sensações. As palavras impressas, digitadas, postadas, me alegram. Sou definitivamente dependente delas. Das palavras. E o silêncio, esse terrível inimigo meu, me ronda, às vezes. E ainda não encontrei maneira de afastá-lo de mim. Gritar?! Sussurrar?! Murmurar?! Orar?! Cantarolar, quem sabe?!
Quero mais que minha voz. Ela já me é familiar demais. Minha demais. Gosto da fala alheia, das palavras dos outros, sempre são mais interessantes. Sempre me dizem mais. Gulosa, sedenta de palavras, sou. 
(...)
Serão só palavras que desejo, ou elas são uma grande metonímia para pessoas?! Meu universo está feito de perguntas, de questionamentos. Vivo uma fase de novas descobertas e experiências e o silêncio não é bem vindo nesse momento. Ele não poderia me dizer nada. Ou poderia?! Será que ele não quer me dizer que nem todos gostam de palavras?! Será que ele não quer me dizer que minhas palavras incomodam?! Invadem?! Apodera-se demais de tudo?! Pra saber disso, palavras! Ou um simples olhar! Aquele que só pode falar algo, quando existir. Quando os olhos deixarem o silêncio morrer.
Bia Crispim