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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

DUAS PENAS DE UM SÓ BICHO

 Esta é mais uma produção ligada ao projeto de livro co-escrito por mim e meu amigo Matheus Ferreira. Deleitem-se!


As galinhas assustadas no terreiro adivinhavam chuva grossa que estava por cair. Penas em polvorosa. Asas abertas num voo que nunca chegava. (Pra que asas se não podem voar?!)
Penas protetoras abriam-se em leques tangendo os pintos todos loucos com o histerismo da mãe. Cococococococococococococococó... interminável e estridente. Galinhas! Bicho de cloaca. Vagina-ânus que fecunda, excreta e põe. Órgão vital. Interessantes, as galinhas.
E o cacarejado continuava até aninharem-se em poleiros, galinheiros ou embaixo de sacadas. Pintos colhidos ou ovos aquecidos ainda por vingar. (Se não viesse o granjeiro apanhá-los quase na boca da cloaca.)
Ovo. Outra coisa interessante! (...)
Naquele lugar as penas eram muitas, de galos, galinhas, pintos. Pombas da paz branca e de muitas outras cores. Penas que olhavam, com muitos olhos. Era o pavão. Ave amostrada e exibicionista. Rabo leque. Pena espetáculo. As galinhas paravam pra olhar, assim como as mulheres. Mas coitada da pavoa, tão desadornada! As mulheres deveriam ensiná-las a se enfeitarem.
Penas negras, anunciadoras de desgraça e morte apareciam por ali, também. Urubus. Bichos que um dia, de plumagem branca, enegreciam-se da podridão, da morte de que se alimentavam. Pena velório.
Outra pena, alvinegra, tão perigosa, de bicho que "pega, mata e come". Pena de música e voo certeiro. Carcará, rei do Sertão. Pena caçadora, pena voraz.
As galinhas morriam de medo desta e daquela. Penas que traziam consigo o gosto de sangue e fim de vida.
Havia as penas coloridas de outras aves que não se sabe quantas: tetéus, galos de campina, anuns, garças, concrizes, rouxinóis e quem sabe mais?!
Os meninos com gaiolas sabem e colecionam todos. Gaiolas que aprisionam penas. Até que um dia, elas fogem das celas ou os meninos perdem o interesse e deixam-nas voar. (Se não desaprenderam a fazê-lo, ainda.)
Os meninos, ao contrário das aves, não voam. Ou voam?! Voam sim!!! E voam com penas.
Penas longas de pontas afiadas e ocas, besuntadas de tinta negra, que deslizam sobre os papéis, sobre as linhas paralelas, desembestadas em voos longos.
As galinhas invejam mais os meninos que qualquer ave. Vendo-os debruçados em mesinhas, com suas penas em riste, cabeças olhando o terreiro, onde elas só ciscam, veem-nos voarem. Elas ficam ali, pondo ovos e pintos. Só.
E o engraçado é que os meninos, mesmo sem cloacas, também põem. Ovos imaginários onde clara e gema se misturam em histórias e estórias. Põem aves e outros bichos capazes não só de voarem, mas também, de falarem e construírem cidades, até.
Os meninos de penas. Penas criativas. Penas curiosas. Penas produtivas.
Aqueles meninos foram criados juntos, como os pintos, ali, nos mesmos currais, vendo as mesmas galinhas, perus, urubus, pavões, concrizes e só Deus sabe mais quantas aves e outros bichos todos.. Aprenderam a amar e viver aquilo tudo, juntos. Saborearam de mesmas vivências e experiências. Comeram das mesmas galinhas cabidelas, ou do pé seco, ou caipiras. Perus de Natal. Penas temperadas.
Aprenderam as letras juntos e alçaram voos no mesmo momento. Quando correram atrás daquele peru e arrancaram-lhe duas penas, para que com elas pudessem escrever todas as asas que já nasciam feito plumagem, feito canhões esperando brotar em letras capazes de voar.


Bia Crispim

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