Quem sou eu?

Minha foto
Descubra-me depois que adentrar na minha poética.

domingo, 25 de março de 2012

INFINITO AZUL DE ÁGUA

Um vento frio soprou janela adentro. O corpo sob os lençóis sentiu sua presença, tremeu, mexeu-se, depois se aninhou. Olhos cerrados de sono perceberam-no como sonho. Voltou a dormir.
Aquela manhã, de sol encoberta, adivinhava chuva. Muita!
As nuvens brancas acinzentavam-se, engrossavam, avolumavam-se. Aninhavam-se umas às outras em tons distintos de cinza.
Até que os primeiros pingos começaram a cair. Chuva lenta, calma, cuspida pela brisa. 
O frio trouxe o despertar. Vontade de não sair da cama, de não abandonar o ninho. De buscar mais cobertores e se perder no aconchego dos panos quentes.
Em movimentos preguiçosos, adormeceu mais uma vez com o barulho da chuva, que engrossava a cada instante. Sons da voz divina de Titã estouravam pelo céu. Metia medo e acalentava. O acolhimento da cama o fez pegar no sono, novamente. Profundamente.
Em seu sonho, a chuva não parava e a casa desmanchava-se como castelo de areia. Não tinha medo. Estava protegido em seu leito. Seu quarto era intacto. Bolha-mundo de proteção intensa. Nem se importou com o resto da casa que se desfazia e era levado pelas águas que agora, em terra, riachava-se.
Caudaloso movimento cruzava as ruas, as estradas, indo Deus sabe, onde as águas todas se encontram. Caminho longo, cheio de histórias, cheio de gentes e vidas e mortes e nascimentos e alegrias e felicidades e desesperos e angústias e...
Subitamente, um passarinho pousou em sua cama, outros mais vieram, trazendo galhos, faziam ninhos... E vendo tudo aquilo, sentiu-se plumado, aquecido. Viu-se ovo, maternalmente protegido num universo só seu, tão particular. De lá, percebia o movimento do mundo como se ele (o mundo) não fosse capaz de atingi-lo.
Mas as águas do riacho, as ondas, bravejaram revoltosas em movimentos e força próprios de água. Chegaram até o ninho e boiando, o ovo em que hibernava desceu pelos caminhos que elas o conduziam.
O que queriam elas com aquele ovo tão cheio de vida, porém tão frágil?!
Solavancos, subidas de ondas, obstáculos na correnteza, corrida rápida, desenfreada. Sacudido de um lado para o outro, por entre a casca, assistia tudo o que aquele rio já testemunhara.
E o céu não dava trégua. Desabava sua cor cinzenta sem piedade. Até que num dado momento, toda aquela tormenta passou, de repente.
E então o firmamento se abriu em um arco-íris. E na calmaria que a água deixou o mundo, o ovo encontrou-se parado, longe de onde havia partido. Era outro. Já maduro, em ponto de eclosão. Vigiado por aves adultas, seus progenitores...
Quando acordou, a chuva já havia passado. E de olhos abertos, pela janela, viu as últimas poças de água refletindo um azul que se abria infinito acima. Num chamado de asas abertas.


Bia Crispim

Nenhum comentário:

Postar um comentário