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sexta-feira, 23 de março de 2012

PARA NUNCA MAIS

Era o costume. Todos os dias, final de tarde, juntavam-se na calçada em frente a bodega para prosear, tomar uma pinga e ouvir o violão que consolidava a amizade.
Vizinhos de todo dia, amigos de toda uma vida, compartilhavam o crescimento dos filhos, as vitórias e conquistas das proles, o desenrolar da tapeçaria da existência vivenciado naquele pedaço de rua.
Todos eram compadres, comadres, ou próximos demais de alguma forma... uma tribo, um clã.
Numa dessas tardes, no mesmo cenário, com as mesmas personagens, a Ceifadora de almas chegou de surpresa. Fez-se. Esteve presente para chocar, para extasiar, para tornar rostos perplexos, pavorosos, desesperados, tristes, chorosos e deformados. Instaurou a dor, primeiramente. Para depois deixar a lacuna, a ausência, a cadeira vazia, a pinga não bebida e a prosa que não seria mais a mesma: uma voz permaneceria ausente.
Os amigos vizinhos compadres comadres viram um membro daquele clã de fim de rua cair de joelhos, tombar e dar um suspiro-ronco, barulho vindo do âmago, último. Testemunhas do impacto e da surpresa que a Indesejada, só ela, é capaz de causar. 
Gritaram, sacudiram-no, mas o coração já não batia, os olhos e ouvidos já não serviam para perceber o mundo. 
Jazia o corpo sem vida e sem compreensão de que não compartilharia mais daquelas tardes.
Nunca estiveram preparados para a Morte. Nunca estarão.
Os que ficaram continuam os rituais diários, as prosas, as pingas e as entoadas de violão. Talvez, vendo a cadeira vazia, pensem ensimesmadamente quem será o próximo a ser surpreendido e se estarão os seus presentes para testemunhar a partida. Talvez desejem assim.
O clã é doméstico, é caseiro e Ela parece que entende isso. Veio buscá-lo em casa. Veio pegá-lo à porta. Como uma amiga, uma namorada ou uma amante que rebate alguém que nos é querido para nunca mais.


Bia Crispim

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