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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

AR DE MULHER

Meus agradecimentos a SanThiago Brenno pelos "casulos".

O vento sopra as cores
As asas se abrem em ousadia
As flores desabrocham
Borboletas, casulos, mulheres e sonhos
Desejos de liberdade e voo
Pele macia de pétalas
Asas coloridas de primavera
Cheiro de mulher no ar


Bia Crispim

EM CADA VERSO

Em cada verso
Uma eternidade
De tudo aquilo
Que morre comigo
Que não mais me pertence
Pois agora é teu
Se assim o quiseres

Descartada numa gaveta
Guardada no coração
Minha ideia é palavra
Que nunca foi minha
Que sempre foi minha 
E sempre será

Em cada verso
Um pedaço
Fragmento
Fagulha
Estilhaço
Do que fui
Do que sou
Do que quero

Acorrentada à liberdade
De falar e escrever
Me faço
Meus limites ultrapasso
E chego até ti
Como um sopro
Uma brisa
Ou um vendaval

Em cada verso
Expando minh'alma
Cuspo fora meus dissabores
Vomito o erro que consumi
Exponho minha fragilidade
E minha fortaleza
Sou paradoxo

Entre alma e carne
Entre amor e ódio
Entre certeza e dúvida
Entre mim e ti
Um mundo
E um abismo

Em cada verso
A música
A rima
E o sentimento
A reflexão de um tempo
Que trago comigo
Mas que não é só meu

Por isso
Toma-o
Consuma-o
Divida-o comigo
E se for humano
Chore e ria
Como faço agora

E escreva um verso
Pra acalmar teu ser
E talvez, dar paz
Ao meu


Bia Crispim

JA-CA-IU

Já é
Já foi
Já era
Jaca caiu na panela
O doce te espera

Bia Crispim

RIO SECO

No leito
Antes rio
Duas manchas
Duas margens
E a terceira

Desenhado
Caminho de terra
Antes água
Antes peixe
Virou pó

Leito leite
Branca vereda
Brilham pedras
Antes estrelas
Num corpo só


Bia Crispim

QUERUBIM BARROCO

Quero sim
Querubim
Só pra mim

Diabim
Bem danadim
Me amando assim

Bia Crispim

PAISAGEM

Na estrada entre Acari e Currais Novos

Pedra densa imensa
Bloco compacto quebrado rachado
Rocha maciça uníssona
Mosaico de mármore
E cores ocres mortes
Cinza sem vida
Rameja de cada fresta
Um espinho é uma festa
Verde cacto fruta e cor e flor
Mandacaru a se compor
De seiva de pedra
Pedra sem vida
Seca de morte
Quente de Sertão
Estiagem
Casa de cobra e aranha
Cerca cercando a montanha
Ramagem jurema e terra
Coberta
Pedra
Dentro de si o sol
Engolido por trás
Rajada serrote
Morte
Da raiz que não se faz



Bia Crispim

UNI(R)VERSO

fluxo refluxo lusco-fusco de luz se metendo se mesclando se mexendo se movendo amanhecendo na troca de cor corrida comprida coronária  coração pulsação vibração agitação de gente de lente de pente de repente despertar acordar levantar ar da manhã e andar a claridade clareza claramanhã clandestina clama o dia que um dia há de vir vem com o vento vontade varrendo noite noturna escuridão natural visceral sexual que encobre que esconde que escorre entre corpos entre coxas entre bocas entre poros entre pernas gozar o gozo do escuroclaro do clarescuro é viver dia-a-dia hora-a-hora minuto-a-minuto segundo-a-segundo relógio tempo passa atravessa repassa a pressa do dia que já é noite que já é dia que já é ciclo círculo circulador redoma redonda que se faz que se quebra num sopro num ato num átimo num piscar de olhos e bocas e pulso e latejo e lampejo de vida que vive e morre que morre e vive que é morte diária registrada no diário na página na folha na placa na lápide imaginária do tempo que se desfaz e se faz e se inventa e se alimente de homem menino cachorro e planta quando vira mortevida em que um vira o outro noutro dia sempre um dia todo dia é mais um dia correia que corre que move máquinatempo máquinavida maquinalmente construída de dia e de noite de noitedia e dianoite e noitedia e dianoite interminável inabalável indecifrável enigma mistério oráculo do que não se sabe e já se sabe pois já houve e só se repete só se repete só se repete só se recicla só se renova só se ré de ré voltar de ré repetir de ré não se vai pois nada volta só vaievolta e vemevai e voltaevai e vaievem pêndulo tempo vida é o que há é o que houve e haverá.

Bia Crispim

SONHO DE FELICIDADE

A meu amigo, Carlos Júnior

Os dedos do sol despertaram-me suavemente. Calor frio anunciando o acordar que já gritava lá fora.
Serenata de ruídos sonolentos e pássaros compunham o concerto matinal.
O aroma do queijo derretido na chapa e do café com leite embrenhava-se narina adentro. Os vizinhos já estavam de pé.
"Tenho que levantar", pensei.
Apesar de o corpo ainda pedir um pouco mais de descanso, eu tinha uma viagem a fazer. Iria conhecer as intensões de um homem que me atraiu e que disse, um dia, que me amou.
Preguiça, bocejo e alongamento. Estava prestes a abandonar a cama e o sono para atirar-me em um sonho: o de ser amada inteira e plenamente.
O banho gelado fez a pele abrir os olhos. Acho que foi aí que despertei, de verdade.
Havia ainda uma bolsa para preparar, havia gatos para alimentar... "Haveria algo pra comer?"
Não ali!
Cabelos penteados, dentes escovados, asseio feito, encontrei-me pronta para a partida.
À porta, sensação estranha de que não voltaria mais. Todavia, duvidei do pensamento. "Por que não voltaria? E minhas gatas?"
(...)
A viagem foi de resto um misto de sono-sonho-realidade. A cadeira macia, as cortinas fechadas e o ar-condicionado convidavam Morfeu a acompanhar-me na trajetória brumosa que começava.
Estava eu em frente daquele rapaz, tão branco, tão lindo, de voz tão firme e aparência tão decidida.
Sem muito tempo para formalidades, de súbito tomou-me num abraço e num beijo. Boca pescoço colo seios ventre... Eu estava nua, no meio de um grande terreno reservado para a montagem de circos, onde eu, agora, era o espetáculo.
Aquele homem explorava meu corpo enquanto os solavancos reais da viagem pareciam-me espasmos de gozo incontido. Gemia, contorcia-me. Ele, com a cabeça entre minha pernas fazia-me esquecer que havia mais alguém no mundo além de nós.
Numa voracidade, tomou-me e então eu tremi e gritei. Urrei, deixei-me possuir até que o êxtase apoderou-se de mim...
Um suave toque de mão masculina despertou-me: "Chegamos, senhora!" - disse-me o cobrador do ônibus.
Pisquei os olhos, bocejei, espreguicei-me feito gata. Estava molhada.
Sensação de prazer pairava no semblante.
Então levantei-me e parti para ver o sonho tornar-se realidade.
Um homem estava a minha espera. E eu mais que nunca tinha fome e sede dele.
Sabia agora a resposta do estranho pensamento de que não voltaria.
Um sorriso acompanhava-me quando entrei no táxi.
- Para onde, senhora?
- Para a felicidade, meu caro. Para a felicidade

Bia Crispim

CANÇÃO DA MANDELLA EXILADA

A Will Campos, meu irmão 

Minha terra 
Tem coqueiros
Onde Madonna vem cantar

Em cismar a dois
À noite
Mais prazer encontro eu cá

Minha casa 
Tem coqueiros
Por onde atravessa o luar

Minha casa tem mais vinhos
Mais cristais e mais música
Minha casa tem mais amigos
E licor de jenipapo pra brindar

Não permita Deus que eu morra
Sem que antes eu vá lá
Em Paris
Sobre a torre
Minha casa ficou lá.

Bia Crispim

SIMBÓLICAS

Símbolos me atraem.
Me incomodam. Me completam. Me confundem.
Símbolos, códigos, gestos, cores, formas,
Estrelas, astros, animais, pedras, ossos,
Sangue e ar. Tempo simbólico.
Nimbos. "O horizonte tá fiando chuva".
Rasga-mortalha, morte.
E/ proibido. 
Arrepio na pele, frio ou paixão.
Espelho quebrado é seu azar.
A flor de mandacaru traz mudança.
São José é chuva e verde, a esperança do Sertão.
"Coelho é ano de fartura" - diz o chinês.
A saúva ganhou asa, vai brotar.
Usei preto no velório e o padre era roxo de Nanã.
Vermelho pra parar.
Fique alerta que amarelo é ouro,
É vaidade de Oxum.
Polegar em riste sempre dá certo.
Os símbolos me confundem.
Me encantam. Encontro-os lá e cá.
E as runas e os búzios e as cartas dizem-me do futuro.
Cresci entupindo-me do místico, da bruxaria, da mandinga e da crença.
Cheia, cheias de símbolos.
Seu olhar me devora, sou presa.
Mas viro onça, fênix, gata.
Vermelho, luta e sangue, branco da paz, se misturam na "aurora" de Drummond.
A coruja, sábia, a serpente audaciosa e traiçoeira 
E o dragão cuspindo fogo e prosperidade.
Na leitura da mão, coração em brasa.
Um anel me prende.
Incêndio interno: amor ou úlcera?!
Símbolos
Eu sou a Esfinge.
Sou seu oráculo.


Bia Crispim

TEMPOS DE MORTE

A morte tem espreitado meus lados
A navalha abriu o ventre
Em bandas
Duas vezes me cheirou

De súbito

Uma substância
Fez arriar 
O pilar, a viga mestra
Prole em alvoroço

A morte deu sinais
-"Estou próxima", dizia

Fragilidades humanas
Homens, o que somos?

A vida morre de medo da morte
Nosso paradoxo

O cromossomo defeituoso
Manifestou-se
Progrediu
Ganhou nome:
Steinert

Era assim que a morte 
Apresentava-se depois
De ouvir os músculos
Em bombardeio

Som de morte
Guerra interna

E do lado de fora,
Pranto e dor
Dúvida e inutilidade

E a criança
Dengosa
Saiu do núcleo familiar
Arrebatada
Ganhou leito, cuidados
Remédios
Outra família

"O cuscuz de vovó é melhor"
Saudades de casa

A morte assustou
Assusta
Criança. idoso
Homem, mulher

A morte espreita meus lados
Todos
Sempre
E o que nos resta
É choro e Deus

Preciso descansar
Ponho "o rosto no travesseiro
fecho os olhos para o ensaio"

A morte habita em mim.


Bia Crispim

CALÍGENA

A Adriano Nunes e sua Gaya

Pousada sobre o mundo
Escuro, obscuro, escondia
Um buraco, um abismo
Quem sabe a morte

Feminino

Lado enigmático do Caos
Mulher, fêmea
Brumosa e solúvel
Mistério de noite
E dia sem sol

Tempos de dúvida

De desânimo e desamparo
Desejo de aconchego
E corpo quente
Perto
Dentro

Picos de vulcão encobertos

De névoa
De maciez
De beleza e enigma
Calígena

Bia Crispim