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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

DOCE CANAVIAL

A meu grande irmão, Damião Vieira

Da terra preta brotou a raça,
Da Negra pele, um canavial,
Cana, açúcar, senzala e praça,
Conceição e reza pro homem mal.

Menino mirim das terras de Oxalá,

Do seu suor, a força laboral,
O doce melado pra forte-ficar,
Palácio Antunes, monumental.

Negra história se formara,

Na cabeça do menino-homem, 
Memória grande, tão clara,
Avivando, Madalena, o ontem.

"Oitizeiro", canto de lembrança,

Barões e escravos, antigos fatos, 
Hoje prosperidade e esperança, 
Negro, dono de si e de seus atos.


Bia Crispim



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

GRANDE LEOA

A Vovó Martiniana


Era um dia ensolarado, brilhante e quente. O céu azulíssimo lembrava os olhos de minha avó.
Minha cabeça voltou no tempo e diante de mim surgiu a imagem daquela mulher pequena, branca, de olhos azuis e cabelos curtos, sorriso alegre e vestidinho florido um pouco abaixo dos joelhos, abria-me os braços cheia de carinhos e afagos.
Levava-me para a cozinha onde o fogão de lenha preparava doces, cocadas de goiaba.
Como os cheiros confundiam-se ali. Cheiro de fogo, de madeira queimada, cheiro de goiaba e coco e peixe que chiava sobre as tachas de ferro. Cheiro de alfazema que exalava do corpo de minha avó com os olhos de mar e céu.
Se os cheiros eram bons, imagina os sabores. Inconfundíveis. O café forte e amargo que aprendi a beber descobrindo seu gosto. A sopa deliciosa de "boquinha de noite". A coalhada adoçada com açúcar mascavo ou mel - colhido ali mesmo, no quintal.
Minha memória fez-me ter... Quantos anos?! Talvez 10, ou menos. Fez meus olhos marejarem. 
Aquela mulher ensinou-me o que era "permitir".
Permitir ser criança, sem fronteiras, que explorava o grande "muro" correndo, brincando, pulando, colhendo folhas, flores, frutas. Mexendo nas hortas, perseguindo as lebres, fugindo de canoa pelo açude, que banhava a porta de trás da casa. 
Vovó ria, com seus olhos de mar. Martiniana era seu nome. 
A alegria em ter-nos por perto, deixava esse mar lindo, cheio de verão. Cuidava de todos, aninhava todos, como gata mãe que era. E como gostava de gatos! 
Seu lar era uma cama de gatos, muitos, tantos, cores, tamanhos, miados e peculiaridades. Havia gatos-filhos, mimados, com lugar cativo embaixo da rede de vovô. Ou com cama reservada para dividir com os visitantes. 
Lembro-me de vovó preparando peixes frescos, recém pescados para todos os seus meninos e meninas felinos. 
Acocorada com as saias presas às pernas, ela tirava as escamas e vísceras, o fel amargo e deixava o filé, as guelras para serem disputados à tapas e grunhidos pelos bichanos.
Grande leoa, minha vó pequena. 
Entendia daquele universo animal como se sua espécie fosse outra,  felina. (E qual mulher não o é?)
Sua grande festa era ver a casa cheia em dias de Nossa Senhora dos Remédios. Devota, religiosa, dedicava parte de seu dia às orações. 
Dormia cedo, acordava cedo. Atividades para o dia todo não faltariam. Mulher enérgica, plena de vida e alegria. (Quanto não herdei de ti?!)
Muito herdei daquela pequenina. 
Herdei amor, herdei cozinha, herdei felinidade, herdei doce, herdei peixe solto dentro d'água, herdei sorriso, herdei aconchego e recebimento, herdei oração e silêncio, herdei energia e agilidade, herdei a pele branca. 
Não herdei uma coisa: os seus olhos azuis de mar.
Mar de Martiniana. 
Mar que me traz em ondas de lembrança a figura de minha avó, a qual, decerto, está no céu, tão azul e lindo como o dia de hoje.    


Bia Crispim

terça-feira, 11 de setembro de 2012

BODAS DE AMOR

Vinícius de Morais disse, um dia: "Mas que seja infinito enquanto dure."
Falava ele sobre o amor.
Amor, palavra sublime, repleta de significado e tão real no ninho em que fomos criados.
Amor que existe entre homem e mulher, entre pai e filhos, entre mãe e filhos, entre filhos e filhos.
Amor que nos faz família, que nos une, que nos completa. 
Amor que nos é ensinado na forma de respeito e tolerância, de aconchego e bondade, de doação e união.
Amor que vem embalar nossas noites na varanda com papai tocando suas modinhas e serestas, acompanhadas ao som doce e suave da voz de mamãe.
Amor que se apresenta na forma de mesas fartas espalhadas pela casa pra alimentar todos de um vez só.
Amor que vem na oração diária e contínua de proteção, dos terços rezados em família.
Amor que vem da cama grande em que nos aninhamos todos num só momento.
Aprendemos a amar todos os dias em nossa casa. 
Nossos professores, nossos exemplos, nossos pais transbordaram o tempo e hoje, 50 anos depois, continuam a nos orientar sob o julgo do amor.
Amor que as gerações futuras transmitem como legado desse um clã. 
Comemorar esse momento tempo é uma celebração, não a uma relação de duas pessoas,  mas sim, a celebração de um sentimento único, puro e verdadeiro que se mantém, que se propaga, que se transmite para os 6 filhos, os 11 netos, as 2 bisnetas. Que se transmite na sobrinha-filha, na sobrinha-neta. Nos agregados todos que adotaram esse lar como seus.
Pai e mãe de muitos, além da carne. Pai e mãe de espírito. Casal exemplo em que o amor  faz-se e dá frutos.
Casal amor em quem Deus faz-se presente e manisfesta-se como sentimento bonito e contagioso.
União que há 50 anos transmite o ensinamento maior do Criador: o amor.
50 anos para ser lembrado como resultado da temperança divina, que só o amor é capaz de dar.
"Mas que seja infinito enquanto dure", disse o poeta. 
Sim, que assim o seja. Que seja infinito, porque amor não se acaba. Que dure mais do que o tempo terreno nos permitir, porque amor é imortal e transmissível.
Amor, infinito e duradouro. Eis o grande legado dos nossos pais.
50 anos. Bodas de ouro. Porque devemos coroar esse momento com glória. 
Com o ouro que não se compra, porque não é dourado nem é metal. Porque não é o ouro dos reis, da riqueza, nem do poder.
Ouro este que é sentimento glorioso, rico e poderoso, presente de Deus aos homens, tão difícil de encontrar ultimamente.
Parabéns, papai e mamãe, pelas bodas, pelo ouro em forma de sentimento, em forma de amor. 
Parabéns pelos 50 anos de lição no amor e para o amor.
Parabéns pelo amor dos dois.
E obrigado pelo amor que nos presenteastes, hoje e sempre.


Bia Crispim (em nome de todos os filhos, netos e bisnetas)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

HÁ DIAS BRANCOS

A Juliano Varela, meu Nêgo.

Há dias em que uma palavra te inunda de LUZ. Feito estrela cadente que alumia desejos; feito clarão de relâmpago rasgando a tempestade; feito lampião a aclarar o Sertão.
Há dias em que a CHAMA se acende viva e quente e pulsante e vibrante, dentro e fora.
O FOGO amarelo azulado luminoso aquecedor veio do escuro.
Escorreu das mãos de um NEGRO.
Meu... tão meu quanto minha LIBERDADE.
Saiu do oco cheio negro de sua cabeça coberta de CACHOS, os quais aninho entre meus dedos em dias de CARÊNCIA e TROCA.
Saiu de um negro MENINO, antigo aprendiz que fez do MESTRE, seu PUPILO.
Papéis invertidos na folha branca do DESTINO.
Há dias BRANCOS que nascem do negro, do ESCURO, da pele melaninada, da audácia própria da COR de quem, negro, se faz DOUTOR. Rompedor de BARREIRAS.
Quanta CLAREZA ainda não sairá dali.
Quanto de ENSINAMENTO o novo mestre não deixará sorver de seus poros, tão cheios de AXÉ e REGGAE, de VOLÚPIA e AMOR, de LIBERDADE e LIBERTINAGEM.
Negro LIVRE tão PRESO a mim.
Tão preso a minha história.
Há dias brancos, sim, senhor!
Há dias brancos, sim. Sim, senhora!
Dias em que PERMITIR ser FELIZ e AMADO não é escolha, é roleta-russa. De onde a bala certeira atinge como flecha de CUPIDO e enche e transborda o ESPÍRITO.
Nesses dias brancos de tão negro, OVULO e dou CRIA.
Minha cria, meu ORGULHO, meu MENINO-HOMEM-MULHER-SER INQUIETO.
Um dia branco... Outros tantos... Muitos outros.
Dias de CRUZAMENTO, de INTERSECÇÃO em que perder-se um no outro é COMPLETUDE.
Dias brancos! Cheios de RISOS e FESTAS, e BEIJOS e ABRAÇOS e OLHARES...
CARINHO AMOR IMENSO que a mente registra como algo bom: AMOR AMOR AMOR.
VITAL, meu amor. Tão nosso!
TRANSCENDÊNCIA de almas que faz da DISTÂNCIA, PRESENÇA; da LIBERDADE, PRISÃO.
SINTONIA, SIMBIOSE, SINTO esse Negro na minha alma branca-negra-mulata-índia-fêmea.
Sinto os dias brancos que se fazem PERTO-LONGE do meu aprendiz-mestre.
Dias brancos em que seu ensinamento são as PALAVRAS que brotam de seus lábios tão doces e, às vezes, tão amargos de REALIDADE.
Palavras que me fazem ser feliz, completa, MULHER, questionamento e ICOGNITA.
Meu outro lado. Meu outro ser.
Ser meu contrário, meu PARADOXO...
É! Há dias brancos.


Bia Crispim


terça-feira, 4 de setembro de 2012

HÁ DIAS NEGROS


Há dias em que o dia não faz sentido... 
Só a escuridão parece clarear e esquentar nossos pensamentos e angústias. Sinto tristeza e fome... Desconsolo e carência... 
Falta de... 
Não sei!
Apesar de ter recebi quatro EU-TE-AMOS, de homens diferentes,  por meios diferentes, de  relações diferentes e em circunstâncias diferentes ... Tudo continuou igual.
TE AMO UM TANTÃO ASSIM, disse-me o primeiro. 
Como reforço de amor e amizade involuntários, que brota de momentos em que a mente nos joga um sorriso no rosto e uma saudade no coração;
AMO VOCÊ DEMAIS, MINHA DEUSA... Desabafo e elogio sincero de quem fez pra mim um templo e um altar. E ainda o faz.
AMO VC - Linguagem moderna de quem me ama virtualmente e mesmo com meus defeitos não conhecidos ainda insiste em dizê-lo.
TE AMO, LEMBRE-SE DISSO, disse aquele que me fez Aphrodite em seus poemas e que me tem como sua.
Mas nenhum dos AMORES me pareceu quente, nenhum afastou as sombras, nenhum me fez tremer e me jogar num abismo de EMOÇÕES sem fim. Nenhum iluminou meu ser como um sol. 
O carro de Apolo não me transportou das nuvens negras que me cercavam, que me cercam hoje.
(Nix, Calígena, deusas presentes.)
É. Há dias negros. 
Tão escuros que os EU-TE-AMOS perdem-se no enigma da ausência da LUZ. 
Olhos cegos tornam os ouvidos surdos e o coração inerte.
Sinto compaixão de mim mesma. 
Dia sem sentido, sem VIDA... Dia escuro e brumoso. 
Em que os poetas mais lúgubres, mais pessimistas, mais intimistas me chamam para o clã.
Aceitam-me para ser parte dos obscuros, dos Byronianos, dos Anjos e dos Azevedos. 
Chamam-me para o banquete Romântico-Simbolista que se apodera de mim.
E o que eu só queria era o CALOR, a chama, o EU-TE-AMO que me enferveceria, que me seria combustível, que me afoguearia as carnes por dentro e por fora e me mostraria o brilho de estar e me sentir VIVA, bem viva. Feito Phênix renovada!
Luz que faria do dia, um SOL; dos negros pensamentos, dias de PRIMAVERA; do que me corroe, em combustão imensa e intensa de SENTIMENTOS.
Há dias negros, sim senhor! Há dias muito negros, sim senhora!
E eis que hoje é um destes!
Estou só, estou no escuro, estou náufraga e isolada. 
Perdi-me em mim mesma e não encontro a saída. 
Tenho medo que meus MEDOS me devorem. Mas preciso enfrentá-los. 
Não devo pensar nos EU-TE-AMOS que meus ouvidos receberam sem que meu coração percebesse. Sem que ele os entendesse.
Devo ouvir e pensar nos CORAÇÕES de onde eles partiram. 
De quatro amores, quatro homens... Quatro situações, quatro meios.
Quem disse, falou-me com AMOR, sincero e verdadeiro. Bem o sei!
Preciso inundar-me com isso, e encher-me a ponto de juntar TODOS em UM só.
Para que o FOGO me brote nas veias e acenda-me como CHAMA, como AMOR, como ALEGRIA, como ENERGIA e VIDA de que sei que sou feita.


Bia Crsipim