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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

GRANDE LEOA

A Vovó Martiniana


Era um dia ensolarado, brilhante e quente. O céu azulíssimo lembrava os olhos de minha avó.
Minha cabeça voltou no tempo e diante de mim surgiu a imagem daquela mulher pequena, branca, de olhos azuis e cabelos curtos, sorriso alegre e vestidinho florido um pouco abaixo dos joelhos, abria-me os braços cheia de carinhos e afagos.
Levava-me para a cozinha onde o fogão de lenha preparava doces, cocadas de goiaba.
Como os cheiros confundiam-se ali. Cheiro de fogo, de madeira queimada, cheiro de goiaba e coco e peixe que chiava sobre as tachas de ferro. Cheiro de alfazema que exalava do corpo de minha avó com os olhos de mar e céu.
Se os cheiros eram bons, imagina os sabores. Inconfundíveis. O café forte e amargo que aprendi a beber descobrindo seu gosto. A sopa deliciosa de "boquinha de noite". A coalhada adoçada com açúcar mascavo ou mel - colhido ali mesmo, no quintal.
Minha memória fez-me ter... Quantos anos?! Talvez 10, ou menos. Fez meus olhos marejarem. 
Aquela mulher ensinou-me o que era "permitir".
Permitir ser criança, sem fronteiras, que explorava o grande "muro" correndo, brincando, pulando, colhendo folhas, flores, frutas. Mexendo nas hortas, perseguindo as lebres, fugindo de canoa pelo açude, que banhava a porta de trás da casa. 
Vovó ria, com seus olhos de mar. Martiniana era seu nome. 
A alegria em ter-nos por perto, deixava esse mar lindo, cheio de verão. Cuidava de todos, aninhava todos, como gata mãe que era. E como gostava de gatos! 
Seu lar era uma cama de gatos, muitos, tantos, cores, tamanhos, miados e peculiaridades. Havia gatos-filhos, mimados, com lugar cativo embaixo da rede de vovô. Ou com cama reservada para dividir com os visitantes. 
Lembro-me de vovó preparando peixes frescos, recém pescados para todos os seus meninos e meninas felinos. 
Acocorada com as saias presas às pernas, ela tirava as escamas e vísceras, o fel amargo e deixava o filé, as guelras para serem disputados à tapas e grunhidos pelos bichanos.
Grande leoa, minha vó pequena. 
Entendia daquele universo animal como se sua espécie fosse outra,  felina. (E qual mulher não o é?)
Sua grande festa era ver a casa cheia em dias de Nossa Senhora dos Remédios. Devota, religiosa, dedicava parte de seu dia às orações. 
Dormia cedo, acordava cedo. Atividades para o dia todo não faltariam. Mulher enérgica, plena de vida e alegria. (Quanto não herdei de ti?!)
Muito herdei daquela pequenina. 
Herdei amor, herdei cozinha, herdei felinidade, herdei doce, herdei peixe solto dentro d'água, herdei sorriso, herdei aconchego e recebimento, herdei oração e silêncio, herdei energia e agilidade, herdei a pele branca. 
Não herdei uma coisa: os seus olhos azuis de mar.
Mar de Martiniana. 
Mar que me traz em ondas de lembrança a figura de minha avó, a qual, decerto, está no céu, tão azul e lindo como o dia de hoje.    


Bia Crispim

3 comentários:

  1. Simplesmente Perfeito... me fez voltar no tempo, deu uma saudade grande da minha amada vozinha.

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  2. Juninho!!!!Linda sua mensagem/homenagem. Voce conseguiu tirar dos meus olhos lágrimas que estão sempre guardadas para ela sempre que vou la na cozinha (que voce tão bem descreve) e num determinado momento penso que ela vai aparecer com o pano de prato no ombro e aquela alegria imensa em nos receber. É muito dificil quando vou visitar Crispim e ter que ir na cozinha sempre me sento naquele velho banquinho de onde sempre conversávamos. Ah cara como sinto a falta dela principalmente depois que mamãe se foi e como dizia muito a ela "a senhora vai ser sempre a representante de minha mãe" Parabéns pela homenagem justíssima. Prego

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  3. Obrigada, Kleninha e Prego... Sempre lembro de muito da minha infância e a figura de vovó é viva demais nela. Que bom que vcs gostaram.

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