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domingo, 14 de julho de 2013

GARGANTA ROUCA


Rugi,
rasguei tuas roupas,
ruminei cada palavra dita:
rompida da garganta rouca.

Rastejei rasteira,
ralando-me nos restos  do que ficou
de mim, de ti,
do que era raro e se quebrou.

Risquei teu nome
do que restou dentro.
Ri a risada mais canina,
rara rompendo

os riscos e rabiscos,
os discos mais ricos,
os livros compartidos,
os sonhos não vividos.


Bia Crispim

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A BOBA E O MENINO

Falar que é amor, talvez seja exagero.
Mas é vontade.
É querência.
Carência, pode ser.
É desejo, pele, química...
Corpo pulsando pulsante. (Quente.)

Quente o coração acelera.
Esquenta, mas dá um frio (dentro).

Dentro
germina alguma coisa
que perturba:
uma semente deixada.

Não sei se o olhar,
ou o sorriso,
ou a voz doce.
Quiçá tudo isso junto.
E mais o quê?

O toque, a delicadeza dos atos,
o cuidado (de quando estamos a sós),
ou esse carinho que ultrapassa o senso,
transpõe as barreiras,
os olhos alheios,
para vivermos num mundo onde só nos cabe.
(Redoma.)

Quem mais, além de nós, entende?
Quem sabe o universo.
(Indiferença nossa.)


Há certas ocasiões em que imagino que esse nosso mundo pertence só a mim.
Devaneio, desvario meu, onde tu cabes.

Aí, de repente, apareces assim:
menino, terno... apaixonante.
(Apaixonado?!)
Conversa comigo pelo olhar
e desperta-me. (Ele conhece esse lugar.)

Como me vês? Igual?
Ou, sou eu que, atordoada, creio e quero (n)isso.

Perturbador, provocador,
abre-me as janelas,
escancara-me as portas,
porém não consigo transpô-las.

Medo?!
Dúvida?!
Timidez?!
(Sinto)

Sinto medo de afastá-lo.
Duvido de tudo e se tudo ou quando tudo...
Intimido-me diante da liberdade que me dás de ser meu,
de eu ser tua.

Tua?!
Quando?
Tarde ou nunca?
Ou a qualquer hora?
(Sempre.)

Há uma membrana,
uma nebulosidade,
um elo que ainda não foi encontrado, 
uma experiência não vivida.

Tenho-te fragmentado...
Quero-te inteiro! 

Por onde começar?
Ou é melhor silenciar-me?
Conversar?
Sobre minhas inquietudes
ou da paz que sinto em estar contigo.
(Senti-lo.)

Quem és tu, menino, em cuja presença meu corpo treme?
(Arrepio.)
E sente vontade de...
Invadir,
consumir,
delirar,
dormir e sonhar.

Quero-te meu.
Loucura ou birra de menina malcriada 
que quer por que quer o brinquedo que julga seu.

Brincamos, mentimos, disfarçamos, provocamos.
Será um jogo?
Certamente o é.
E és tu quem dita as regras.
E eu as desconheço.
Sou brinquedo teu.

Quem és tu, menino?
Quem sou eu nesse tabuleiro?
Quem somos nós?
Rei e Rainha,
ou peões de um joguete do destino?

Não há respostas nos livros que leio.
Nem no que escrevo. (Palavras indecifráveis.)
Nem os outros podem dizer. (Não saberiam.)

Ou, certamente, sim,
caso nos vissem próximos.
E, talvez, dissessem algo:
(A verdade?!)
- Lá vai a boba diante do menino.
- Lá vai o brinquedo que brinca com a brincante.

Bia Crispim

terça-feira, 2 de julho de 2013

REFEIÇÃO

Houve um tempo em que te quis inteiro.
Todo.
Apoteótico.
Feito Apolo cavalgando o Sol.
De corpo uníssono, para ser devorado de uma só vez.

Não senti o gosto nem o prazer que sonhara.
Teu sabor não foi tão bom
e tu ficaste preso na garganta
como espinha de peixe
ou angústia
ou choro de remorso.

Cuspi-te fora.
Apesar de a boca cheia d'água, 
sedenta de ti e voraz.

Aí veio o tempo em que te quis as partes.
Todas elas.
Uma de cada vez.
Petiscos para meu prazer.

Primeiro comi teu cheiro
e o olfato despertou-me a textura
e o sabor de tuas carnes.

Depois comi teus olhos
e eles me encheram de vida
e paixão
e delicadeza
e encanto.

Requintei,
sensibilizei meu paladar
e teu sabor me foi o melhor.

Em seguida comi tua boca
e nela veio teu sorriso
e tua língua
e teu hálito.

Entendi tuas palavras,
tuas ideias
e a fome que sentias de mim.

Descobri ali que tu também me querias
em teu nariz e olhos,
em tua boca e pele,
em teu coração.

Daí almocei-te 
(entrada, prato principal, sobremesa e um cafezinho para um cigarro.)

E por último deixei-me virar ceia.

À noite, tarde, toda.
Por partes,
aos bocados,
em pedacinhos.

Até que nos consumimos
e viramos sol.

Só no amanhecer.

Bia Crispim